Edição de Sábado: Escombros

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O som das máquinas, das picaretas e das pás causa uma cacofonia que parece tornar ainda mais desesperadora a busca por sobreviventes em La Guaira, a cidade mais atingida pelos terremotos devastadores da semana passada, aqui na Venezuela. A cada dia que passa, o barulho do concreto sendo perfurado vai se transformando em uma estranha marcha fúnebre. Depois das primeiras 72 horas, encontrar alguém vivo encurralado sob lajes, vigas, móveis e tudo mais que veio abaixo é cada vez mais raro. Mas não impossível.
Na terça-feira, seis dias após os terremotos, a triste sinfonia parou. Alguém, de cima de um monte de escombros do que um dia foi um shopping center, gritou: “Silêncio!”. E o silêncio se fez. Todos pararam o que faziam e atenderam a ordem de se manterem calados. De longe, a única coisa que se podia ouvir era um socorrista gritando para dentro de um buraco: “Se me escuchas, grita o bate tres veces”. Alguém escutou. E respondeu.
Por horas, os socorristas trabalharam sob o sol forte da manhã. Serravam vergalhões, abriam acessos, enviavam água para aquele homem que sobrevivera, sabe-se lá como, por longos oito dias. No fim da manhã de quinta-feira, Hernán Gil, um vigilante do shopping center, emergiu dos destroços. Enquanto os socorristas o levavam para uma ambulância, a população que acompanhava o resgate, incrédula, só tinha uma palavra para descrever o que estava assistindo: “milagro”.
O resgate de Hernán Gil foi uma cena rara nesse desastre de proporções ainda difíceis de serem calculadas. Dos escombros saem muito mais cadáveres do que sobreviventes. Ainda não se sabe ao certo quantos morreram aqui, mas as estimativas mais otimistas dão conta de que ao menos 10 mil pessoas perderam a vida. Outros tantos ficaram feridos. Dezenas de milhares vivem agora espalhados pelas ruas, pelos parques e pelos abrigos improvisados em La Guaira e em Caracas, sem saber o que o destino lhes reserva. Há ainda um sem-número de venezuelanos que decidiram montar acampamento diante de suas antigas casas, esperando que ao menos seus mortos sejam retirados das ruínas.
Dori Romero, uma vendedora de quitutes de La Guaira, garante que só deixará as ruas quando Isabella, sua filha caçula, for encontrada. “Com vida ou morta, não a deixarei aqui para que apodreça”, dizia ela, com lágrimas a lhe tomar o rosto empoeirado. Como tantos nessa tragédia, Doris conta com a ajuda da família e dos amigos para tentar recuperar a filha. “Eles dizem que não há mais vivos aqui, mas ainda tenho fé.”
Com os esforços das equipes internacionais de resgate concentrados em encontrar alguém com vida, cabe aos venezuelanos buscar seus próprios mortos. “Disseram que não há sinal de vida e se foram. Ninguém mais voltou para nos ajudar. Estamos sozinhos”, contava Dulce, que procurava o pai e um sobrinho por meio de um buraco aberto a marretadas pelos amigos. “Estamos procurando. Pelos nossos cálculos, esse é o andar onde eles viviam”, dizia ela, diante de um amontoado de lajes que caíram umas sobre as outras.
Mais de uma semana depois dos terremotos, o governo venezuelano não conseguiu encontrar uma maneira de efetivamente iniciar um processo de recolhimento dos corpos que seguem sob os escombros. Caracas enviou milhares de soldados para La Guaira, mas nenhum deles está envolvido no difícil e doloroso trabalho de escavar o concreto em busca de seres humanos esmagados entre paredes e vigas. Diante da inoperância, foram vizinhos, amigos e familiares que tomaram a iniciativa de buscar os seus.
Foi assim desde a noite da quarta-feira da semana passada, quando a terra tremeu na Venezuela. Nas primeiras horas que se seguiram ao terremoto, o governo venezuelano ficou apático. Sem equipes especializadas, sem equipamentos adequados, sem coordenação, o resgate daqueles que ainda estavam vivos foi feito pela população, boa parte dela composta por pessoas que sobreviveram ao desastre.
“Cheguei aqui duas horas depois de o edifício ter vindo abaixo e encontrei quatro pessoas, gente aqui do bairro, tentando encontrar quem estava vivo”, dizia Astrid Spinoza, mãe de uma jovem de 18 anos que seguia sob os escombros de um edifício de Caracas na terça-feira. “Quando os bombeiros vieram, não tinham máquinas nem ferramentas”, contava ela, que um dia depois de conversar com o Meio teve a confirmação de que sua filha não sobrevivera.
Ao longo dos dias, os venezuelanos tiveram a confirmação do que já pareciam saber. Após mais de uma década de profunda crise econômica e péssima administração, o Estado venezuelano mostrou-se incapaz de responder a um desastre dessa magnitude. Um sentimento de abandono tomou conta dos atingidos. “O que nos ajudou foi a ajuda internacional. Sem ela, estaríamos sozinhos”, dizia Raul, que, paciente, aguardava notícias da filha e de dois netos que ficaram presos em um edifício à beira do mar azul-caribenho de La Guaira.
A ajuda só chegou efetivamente quando as equipes internacionais começaram a desembarcar na Venezuela, entre o sábado e o domingo. Foram mais de dois mil socorristas especializados, vindos de mais de 30 países, como Chile, México, Estados Unidos, Brasil, França, Catar e até Síria. Foram eles, equipamentos com maquinário e utensílios de alta tecnologia que conseguiram fazer os resgates mais complicados e improváveis, como o de Hernán Gil. “É tudo meio caótico, nos colocaram num local sem nenhuma estrutura e estamos tendo dificuldades em encontrar tradutores”, reclamava um socorrista catari que buscava entre os jornalistas que cobriam a ação quem falasse inglês e espanhol.
“Há uma percepção errada de que o Estado venezuelano foi lento na resposta ao terremoto”, diz Luiz Vicente León, sociólogo de Caracas que há mais de duas décadas se esforça para entender e explicar o que se passa com a Venezuela. “A resposta que vimos foi a resposta possível que um Estado depauperado, em profunda crise econômica e política, foi capaz de oferecer”, afirma. “Não se trata de má vontade. Trata-se de incapacidade.”
Poucos países do mundo enfrentaram uma crise econômica das dimensões da vivida pela Venezuela após o fim do ciclo de alta das commodities. Hiperdependentes do petróleo, os venezuelanos assistiram a uma transição abrupta de uma vida de relativa riqueza para a penúria quase absoluta em menos de uma década. Apenas entre 2013 e 2021, o PIB venezuelano despencou 75%. “Não se pode esperar muito de um país que enfrenta um ciclo de empobrecimento tão acelerado”, diz León.
Ao mesmo tempo, a Venezuela assistiu a uma fuga de capital humano sem precedentes em sua história. Ao longo dessa década de crise, cerca de 30% da população deixou o país em busca de uma vida melhor. Junto com parte da mão de obra barata que passou a abastecer países da região, foram-se também profissionais especializados: médicos, engenheiros, economistas e agricultores. “Hoje temos 58% da população em miséria absoluta, 72% são pobres e sequer conseguimos fazer uma transição imediata de poder sob o risco de entrarmos em uma crise ainda maior”, diz Henry Sanchez, coordenador do principal partido de oposição, o Vente Venezuela, da Nobel da Paz María Corina Machado.
Desde o dia 3 de janeiro, quando forças especiais americanas invadiram a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro, o país está sob tutela americana.
É Washington que dita as regras, o tempo e o espaço por aqui. A estratégia americana é retomar a indústria petrolífera do país e, com esses recursos, injetar dinheiro na economia venezuelana para só depois pensar em um processo de transição democrática do poder. Não há data para que isso aconteça e, até lá, segue no comando o mesmo grupo político ligado ao chavismo que garantia ser um dos últimos pilares anti-imperialistas do mundo.
“Um processo eleitoral agora, há que se reconhecer, tem um potencial de desestabilização sem precedentes”, diz Luiz Vicente León. Sua opinião é, curiosamente, compartilhada por Henry Sanchez. “Nós queremos eleições, mas é preciso estabilidade para que a transição seja tranquila”, afirma.
María Corina Machado, a maior — e talvez a única — líder da oposição venezuelana, pensa diferente. Em meio ao caos em que o país esteve soterrado nos últimos dias, voltou à carga. Fez divulgar a notícia de que estava prestes a retornar ao país. Tentou voar para Curaçao e, de lá, pegar um barco para a Venezuela, assim como Fidel Castro fez para retornar a Cuba. Foi impedida pelo governo holandês, sob supervisão do governo de Donald Trump — o mesmo que recebeu simbolicamente o Nobel das mãos de Corina —, que, indiretamente, impediu sua chegada ao país natal. Depois foi para o Panamá, onde, novamente, foi desaconselhada pelo Departamento de Estado a tentar entrar na Venezuela. Ao final, divulgou um vídeo dizendo que o governo venezuelano havia fechado o espaço aéreo para impedir sua entrada, o que claramente era mentira.
No lado do governo, as respostas de sempre. Em entrevista coletiva na noite de quinta-feira, a presidente Delcy Rodrigues atribui a “laboratórios midiáticos” o caos dos primeiros dias de resgates. De acordo com ela, veículos de comunicação independentes criaram pânico na população, fazendo que milhares de caraquenhos descessem para La Guaira, o que impediu a chegada dos resgatistas venezuelanos nas primeiras horas. “Fizemos tudo que estava em nossas mãos e seguiremos fazendo tudo que está em nossas mãos e ainda mais”, disse ela.
Em meio às disputas políticas, os venezuelanos seguem vivendo uma nova tragédia dentro de sua própria — e aparentemente perene — tragédia. Talvez o maior exemplo dessa falência quase absoluta do Estado esteja na incapacidade do governo venezuelano de lidar com os milhares de mortos desse desastre. Nos dias que se seguiram aos tremores, cadáveres ficaram espalhados pelas ruas de La Guaira aguardando quem os recolhesse. No necrotério da cidade, centenas deles apodreciam sob o sol quente do Caribe. Não havia sequer caminhões refrigerados para conservar os corpos. Não havia sequer formol ou cal para amenizar o forte cheiro de putrefação que tomava conta de tudo e de todos.
Quando a situação se tornou insustentável, os corpos foram levados para o Porto de La Guaira. Lá, ainda expostos ao sol, estavam disponíveis para serem reconhecidos pela população, que busca, há dias, encontrar seus entes queridos para lhes dar um fim digno. Centenas de caixões se amontoavam no terminal à espera de seguirem para os cemitérios. Com a ajuda de doações, os profissionais forenses conseguiram mais de uma tonelada de cal para espalhar sobre os cadáveres. Conseguiram, ao menos, reduzir o odor acre ao redor das docas.
Mas, no entorno dos edifícios que vieram abaixo, o cheiro continua, cada vez mais forte. Os familiares daqueles que se foram já não parecem mais se importar. Continuam, com pás, picaretas e as próprias mãos, tentando encontrar uma maneira de pôr fim, ao menos, a uma parte dessa tragédia.
A batalha pelos católicos
Cem milhões. É esse o tamanho da população católica no Brasil. Os dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE, mostram que 100,2 milhões de brasileiros se declaram com essa escolha religiosa. Embora representem a menor proporção da população desde 1987, eles seguem formando o maior grupo religioso do país e, às vésperas da eleição de 2026, uma das fatias mais cobiçadas do eleitorado. A pesquisa AtlasIntel divulgada nesta semana ajuda a explicar por quê: neste segmento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 48,3% das intenções de voto, contra 37,9% do pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL).
Nos últimos meses, os dois partidos intensificaram os gestos em direção a esses eleitores. Os percentuais revelam uma disputa. Não explicam, porém, sua complexidade. No catolicismo, a política segue outra lógica. Entre a memória da Teologia da Libertação, o avanço de um conservadorismo católico, o surgimento de influenciadores religiosos e até os reflexos da disputa entre Donald Trump e o papa Leão XIV, a Igreja vive uma reorganização que ajuda a explicar por que esse segmento se tornou um dos mais estratégicos da corrida presidencial. Foi esse cenário que Tabata Tesser, socióloga da religião da USP, desenhou em entrevista ao Meio. Confira os principais trechos da conversa.
A última pesquisa Atlas mediu como os católicos pretendem votar nesse ciclo eleitoral. Lula marca 48,3% contra 37,9% de Flávio. O que isso indica?
Para responder, vale olhar para o passado dos católicos nas eleições. Isso ajuda a entender por que se fala tanto que a tríade mais complexa para Flávio Bolsonaro nessas eleições é formada pelas mulheres, pelo voto nordestino e pelos católicos. A disputa pelo eleitorado católico não começou em 2026. O catolicismo sempre teve presença política, tanto no campo conservador quanto no campo popular, desde as Comunidades Eclesiais de Base, a Teologia da Libertação e as pastorais sociais até os setores mais tradicionais e carismáticos. No governo Bolsonaro, houve uma participação expressiva de católicos. Muito se fala do papel da Damares Alves no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, mas quem ocupava a Secretaria da Família era a jurista Angela Gandra, uma católica. A família Gandra ajuda a entender essa tentativa de aproximar o catolicismo de uma ala mais bolsonarista. Ainda assim, é muito mais complexo dizer que existe um bloco propriamente católico bolsonarista. Podemos citar lideranças como Simone Marchetto, Eros Biondini e a aproximação de Flávio com o padre Reginaldo Manzotti como ativos importantes. Mas isso é diferente de afirmar que exista uma base eleitoral católica consolidada em torno do bolsonarismo.
Como Lula e Flávio Bolsonaro estão tentando disputar esse mesmo eleitorado?
O PT tem uma relação histórica com o catolicismo popular. O partido nasce no contexto das Comunidades Eclesiais de Base, da Pastoral Operária, da Comissão Pastoral da Terra e da Teologia da Libertação. Talvez a grande questão seja que não só esse PT não existe mais como também esse catolicismo perdeu muita força. O que vemos hoje é uma tentativa do partido de dialogar novamente com esse campo e recuperar uma memória afetiva dessa relação. Já Flávio Bolsonaro está fazendo com os católicos algo parecido com o que a esquerda tentou fazer com os evangélicos nas eleições de 2018 e 2022: uma aproximação com lideranças e símbolos religiosos. O encontro com o padre Manzotti, a visita ao Vaticano e o pedido para que o papa rezasse pelo Brasil fazem parte dessa estratégia. Ao mesmo tempo, há uma diferença importante em relação ao mundo evangélico. Pouco depois de receber Flávio, o padre Manzotti também recebeu o ex-ministro do Lula, Camilo Santana. Isso mostra como o catolicismo institucional costuma manter canais de diálogo com diferentes campos políticos.
O que mais tem sido feito?
Os acenos de Flávio mostram que ele reconhece a dificuldade de ampliar sua votação entre os católicos. Se observarmos as duas últimas propagandas do PL, há uma tentativa de incorporar uma gramática muito próxima das campanhas da própria Igreja Católica, falando de desigualdade, recuperação social e da imagem dos pobres. Do lado do PT, também houve uma articulação recente. O 13º Encontro Nacional da Pastoral de Fé e Política foi seguido pela Carta dos Católicos e Católicas do PT, que apoia a reeleição, defende o Estado laico, mas evita temas como direitos sexuais e reprodutivos. Isso revela uma escolha deliberada de dialogar com um segmento do eleitorado que pode estar mais próximo do bolsonarismo. Por isso, eu diria que Flávio está tentando fazer com os católicos aquilo que a esquerda tentou fazer com os evangélicos nas eleições anteriores: disputar um eleitorado que nunca foi homogêneo e continua sendo decisivo.
Mas a Igreja Católica participa dessa disputa de forma diferente das igrejas evangélicas?
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é uma instituição bastante plural. A CNBB tem uma posição histórica de não indicar candidatos. O que ela faz é divulgar cartas aos seus fiéis, estabelecendo diretrizes para o pleito. A gente poderia dizer que a CNBB não faz campanha para candidato, mas faz política no sentido forte do termo, porque oferece espaços de diálogo para que essas conversas possam acontecer. O que está em jogo nessa disputa é o próprio significado público do catolicismo. A Igreja Católica vive um momento de pós-Francisco, dialogando com temas como Amazônia, defesa da Casa Comum, moradia e combate à desigualdade. Ao mesmo tempo, os documentos da CNBB reafirmam a defesa da vida desde a concepção e uma posição contrária ao aborto. Então, ao mesmo tempo em que a Igreja orienta os fiéis a votarem contra a desinformação e a compra de votos, ela também dialoga com pautas morais que aproximam parte desse eleitorado do bolsonarismo. É por isso que esse eleitorado é tão complexo.
A carta do PT critica a politização nas igrejas, algo que estamos acostumados a ver em igrejas evangélicas. Como isso tem atravessado a Igreja Católica nos últimos anos?
Olha, eu diria que a própria CNBB também está preocupada em não ser associada nem ao PT nem ao PL. Dou dois exemplos. Depois do Encontro Nacional da CNBB, o presidente Lula gravou uma mensagem que foi publicada nas redes sociais da Conferência. O vídeo acabou sendo retirado da página após a pressão nos comentários. Outro caso é o do frei Gilson. Ele se tornou um fenômeno de popularidade, recebeu o Nikolas Ferreira e passou a ser associado a um público bolsonarista. A CNBB o chamou para conversar, ele retirou alguns vídeos e, nos últimos meses, adotou uma postura bem mais cautelosa. Há ainda o caso do padre Júlio Lancellotti, que também enfrenta críticas e restrições justamente por ser identificado com a esquerda.
De que maneira a Igreja faz política, então?
A CNBB nunca disse que os católicos não devem participar da política. A compreensão dela sobre participação política não passa necessariamente pela participação partidária. Historicamente, as pastorais sociais, os movimentos populares e os grupos de fé e política sempre incentivaram a presença dos católicos no espaço público. É uma lógica diferente daquela dos grandes congressos evangélicos marcadamente partidários. Talvez a melhor forma de olhar para o eleitorado católico seja entender que ele nunca votou como um bloco homogêneo. Justamente por ser o maior grupo religioso do país, reúne perfis sociais, econômicos e ideológicos muito diferentes.
Mas dá para dizer que há mais afinidade com algum candidato?
Hoje, Lula continua mais forte entre os católicos, enquanto Flávio Bolsonaro lidera entre os evangélicos. Mas eu acho que existe outra questão importante. O papel das outras candidaturas. Existe um eleitorado católico que se incomoda com o bolsonarismo por causa da pauta armamentista, da linguagem bélica e de temas ligados aos direitos humanos. Ao mesmo tempo, também há católicos que fazem críticas ao PT, especialmente em relação à corrupção. Então, talvez a disputa entre os católicos não seja apenas entre Lula e Flávio Bolsonaro. Pode haver espaço para uma dispersão desse eleitorado entre outros candidatos, como Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado.
Qual delas conversaria bem com esse eleitorado?
Existe uma franja importante do conservadorismo católico muito ligada ao campo do MBL. Apesar de o Renan Santos ter todo cuidado com o eleitorado evangélico, existe uma massa crítica desse bolsonarismo conservador católico que poderia migrar para ele. E aí entram também fatores conjunturais, como o caso Master. Outro ponto importante é o papel do Zema. Existe aquela piada no contexto eleitoral de que quem ganha em Minas Gerais ganha a Presidência. E tem pesquisadores acompanhando a trajetória de lideranças como o Nikolas Ferreira, que, apesar de ser evangélico, vem fazendo acenos importantes ao campo católico. É preciso entender esses movimentos nos estados. O peso do catolicismo é muito importante no Nordeste. Essa vaga de vice de Flávio Bolsonaro — ele já acenou para Clarissa Tércio ou com Simone Marchetto — é uma tentativa de suprir aqueles três pontos em que ele tem mais dificuldade: mulheres, Nordeste e católicos.
Bolsonaro conseguiu construir uma base evangélica forte, mas se elegeu sendo católico. Por que não conseguiu construir uma base católica do bolsonarismo?
Lembro de um estudo muito interessante do professor Ronaldo de Almeida que cita a participação de católicos no governo Bolsonaro. Alguns grupos da Igreja Católica, apesar de estarem em comunhão com a Igreja, têm posições bastante autoritárias e participaram de espaços públicos naquele governo. É o caso dos Arautos do Evangelho e também do Centro Dom Bosco, que esteve ligado por muitos anos à deputada Chris Tonietto, no Rio. Então, existem tentativas de organizar um campo católico bolsonarista. Mas o catolicismo, diferentemente do universo evangélico, é uma religião hierarquizada, submetida a uma estrutura que passa pela paróquia, diocese, arquidiocese e chega à CNBB. Isso torna a atuação política muito mais difusa. Ao mesmo tempo, é importante dizer: a Igreja Católica não tem candidatos, mas há católicos candidatos, com força eleitoral e representando grupos bastante expressivos dentro da Igreja. A própria Chris Tonietto dialoga com um setor ultratradicionalista. Eros Biondini representa um segmento importante da Renovação Carismática. Já Chico Alencar conversa com o campo da Teologia da Libertação. Ou seja, os segmentos católicos têm seus candidatos, mas a Igreja, institucionalmente, não tem.
Então, a diferença é que o catolicismo distribui essas lideranças em vários campos, em vez de concentrá-las em um projeto político?
Acho que isso dificulta justamente a construção de uma estrutura político-partidária como a que existe entre os evangélicos. Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja incentivou os leigos a se organizarem na sociedade civil e atuarem no espaço público. Foi daí que surgiram muitas pastorais sociais. Hoje, porém, vemos também um catolicismo paralelo crescendo. Há padres influenciadores, editoras, associações e grupos conservadores que não estão vinculados diretamente às estruturas oficiais da Igreja, mas que ganharam relevância pública e eleitoral. Essas lideranças acabam dialogando com candidatos, mesmo sem representar oficialmente a Igreja. O caso de Bolsonaro em Aparecida ilustra bem essa diferença. Ele foi recebido, mas também foi vaiado. Tem também um outro ponto interessante: a naturalização da presença do catolicismo no Estado. A gente olha muito para o crescimento político dos evangélicos porque ele é mais visível, mas isso acaba escondendo que os católicos sempre ocuparam espaços importantes.
Quais espaços?
Nós fizemos uma pesquisa no Judiciário, com o Instituto de Estudos da Religião (ISER), e identificamos que, enquanto vemos uma presença muito explícita dos evangélicos no Parlamento, existe um ativismo muito mais discreto dos católicos no Judiciário. Isso não significa que eles não atuem politicamente. Significa apenas que ocupam espaços diferentes. O fato de o Judiciário exigir muitos recursos, de o catolicismo ter forte presença no Ensino Superior e, historicamente, entre as elites, ajuda a explicar esse perfil e a naturalização dos católicos nos espaços de poder. O próprio Lula é um exemplo disso. Ele governou o país por dois mandatos e o fato de ser católico nunca foi tratado como um ativo eleitoral. Agora vemos um reavivamento dos Católicos do PT. Isso mostra que a religião passou a ser um valor mais explícito na disputa política.
O que mudou na relação entre PT e católicos?
Acho que a Igreja Católica e o PT vivem, de certa forma, um sintoma parecido. São instituições que tentam dialogar com um Brasil que ainda existe, mas que já mudou muito. Ao mesmo tempo, isso não significa que os católicos tenham deixado de participar da política. Recuperei os dados do ato em defesa dos envolvidos no 8 de Janeiro, na Avenida Paulista. O Monitor do Debate Político da USP identificou que a maioria dos participantes era católica. Embora o carro de som e a organização fossem marcadamente bolsonaristas e evangélicos, a base presente era majoritariamente católica. Isso mostra uma diferença importante: enquanto os evangélicos aparecem mais na mídia e no Parlamento, construindo uma identidade fortemente associada ao bolsonarismo, os católicos também participam desses espaços, mas de maneira menos visível, talvez porque historicamente já ocupem instituições do Estado.
O que mais há de novidade nessa atuação?
A aproximação entre mulheres católicas conservadoras e lideranças evangélicas. Hoje existe um contingente importante de católicas participando de espaços organizados por mulheres evangélicas conservadoras. Isso me parece um fenômeno relativamente novo. Por exemplo, a deputada Ana Campagnolo é evangélica e convida para seus cursos e livros antifeministas católicas como Pietra Bertolazzi, Patrícia Silva e Gabriela Saboia. A partir das pautas conservadoras, Ana também consegue mobilizar os dois públicos: católicas e evangélicas. Ao mesmo tempo, continuam existindo espaços próprios de organização do conservadorismo católico. O recente caso da excomunhão da Fraternidade São Pio X mostra que esse campo continua muito ativo e que essas tensões não acontecem apenas no Brasil.
E como o cenário internacional também influencia essa disputa?
A candidatura do Flávio Bolsonaro está muito associada ao governo Trump, e os conflitos recentes entre Donald Trump e o papa Leão XIV podem produzir efeitos também entre os católicos brasileiros. Isso ficou evidente porque lideranças conservadoras que normalmente apoiam Trump, como Eros Biondini e o padre Paulo Ricardo, fizeram críticas quando os ataques passaram a atingir diretamente o papa. Em outros temas internacionais houve silêncio, mas, quando o conflito envolveu a liderança da Igreja, houve reação. Nos EUA, existe um setor católico importante dentro do movimento MAGA. Só que, depois desses conflitos com o papa, já começam a aparecer sinais de dispersão desse campo. Não por acaso, o vice-presidente J.D. Vance, que se converteu ao catolicismo, lançou um livro narrando sua conversão e tem feito acenos explícitos a esse eleitorado.
A carta dos Católicos do PT defende o Estado laico, algo que não apareceu na carta dos evangélicos. Por quê?
Acho que fica muito mais fácil para os católicos defenderem o Estado laico porque eles já ocuparam historicamente diversas esferas do Estado. Não existe contradição entre ser religioso e defender o Estado laico. Mas, institucionalmente, faz diferença já ter experimentado esse lugar. A pergunta mais importante é: o que significa, na prática, um Estado laico? Porque, muitas vezes, ele aparece como um consenso, mas raramente se explica como se efetiva.
Playground invisível
Olhando de fora, é só uma fachada insuspeita, com uma porta ladeada por luminária estampada com um logo discreto e um grande portão preto. Ao entrar, uma cozinha com um bar, e dois salões, um com a área de fumantes e outro para esperar a atração principal: a sala de escuta. Quando a entrada é liberada, a primeira coisa que chama a atenção são os dez módulos de caixas de som pendurados no teto, com uma estrutura iluminada que entrecorta as fileiras de sofás baixos, dispostos em posições estratégicas. Ao todo, são dez fileiras que acomodam 50 pessoas confortavelmente.
Esses módulos de caixas mais visíveis e chamativas não são as únicas em ação quando o espaço é colocado para funcionar de verdade. Em frente e atrás dos sofás há pares subwoofers, as caixas de som responsáveis pelo grave mais profundo, e, nas laterais, escondidas por cortinas, paredes sonoras. São mais de 200 caixas e com mais de 1.100 alto falantes empregados para a construção do ambiente sonoro da sala. “Isso sem falar nos cabos. Se colocar em linha reta, acho que dá para chegar no Piauí”, brincou Guilherme Picorelli, um dos três sócios da galeria Ibehas, na primeira vez que estive lá, em uma sessão para apresentar a convidados o projeto que irá inaugurar o espaço neste segundo semestre, a mostra Feche os Olhos.
A ideia de Feche os Olhos é bastante literal. Sentado confortavelmente, o ouvinte é convidado a deixar que o sentido da visão seja silenciado para que os sons povoem a sua imaginação. Quando a peça começa, o balé de sons proposto por cada artista, que preenche o ambiente com seus volteios, ataques e alívios, vai gradualmente envolvendo os sentidos do ouvinte e deixando que as sensações físicas e auditivas comecem a pintar quadros interiores.
Obviamente, a reação de cada pessoa é única, mas sem dúvida é uma maneira singular de experimentar a arte sonora, que, no universo das linguagens artísticas, é certamente uma das mais desafiadoras. Como argumenta o crítico David Stubbs em seu livro Fear of Music – Why People Get Rothko But Don't Get Stockhausen, por conta do componente físico e do possível desconforto que o som pode causar aos ouvintes, a barreira para entender e apreciar a complexidade da arte moderna que emprega sons é muito mais alta do que a da produção visual. Por isso, tornar o ambiente acolhedor para a experiência é um dos grandes trunfos da Ibehas.
Da locação à arte
Por trás da galeria estão três sócios: Picorelli, João Ferreira e Raoni Cruz, os dois últimos já sócios em uma empresa de locação de equipamentos de áudio, a CPRO. Antes de pensar em montar a galeria, eles começaram a construir sistemas de som imersivos pensando em vender essas soluções a clientes. “A gente sempre foi nerd de som”, conta Ferreira. Foram 15 anos de estudo, fazendo testes com multicanais, Wave Field Synthesis (técnica de espacialização de som) e ambisonics (formato de som surround), até a virada de prestador de serviço para autor. Quando perceberam que não iriam vender esse tipo de sistema, decidiram que eles mesmos tinham de partir para a criação. “Sinceramente é assim que nasce o espaço, como uma abstração”, diz Ferreira. “A gente subiu para o andar de cima. Começou como ideia de um Globo da Morte, a gente tem essas pirações assim, de fazer uma ambiência perfeita com um lugar suspenso no meio”, lembra Cruz. Mas no centro do conceito está a distribuição do som pelo espaço. “Os canais, eles se tornam objetos”, explica Picorelli.
A evolução foi esse formato que prima pelo bem-estar de quem se propõe a essa aventura. “Absolutamente tudo que você consiga dar ao ouvinte de conforto, para ele se preocupar só em ouvir, é meio o que a gente tentou fazer”, diz Ferreira, frisando que é o oposto do que vemos hoje, mesmo em salas de concerto, com toda sorte de distrações, sobretudo as que vêm do celular.
O software
Mas a sala, embora importante, não é tudo. Inclusive os formatos podem mudar em exposições futuras, para incluir performances ao vivo e outras configurações espaciais, dependendo da obra a ser executada. Numa analogia, a sala é o hardware e os sons, o software.
Por isso a curadoria de quem compõe para o Ibehas é fundamental. Nessa primeira leva, foram convidados artistas como L_cio, Mari Herzer, Zopelar, Paulo Beto, Cøelho, Tom Monteiro, Agrimensor (duo formado por Sávio Queiroz e Marcelo Modou), além do próprio João Ferreira. Os artistas foram convidados a visitar a sala para depois criar as obras. “As pessoas piram, saem com mil ideias depois de ver o lugar”, conta o curador Chico Cornejo. Por outro lado, não entender o espaço também pode ser um problema. O artista colombiano Aeondelit foi convidado pela internet a criar uma obra e o resultado foi decepcionante. “Ele nunca tinha visto a sala, não tinha noção do que ela faz”, justifica Cornejo. Após uma visita, o trabalho foi mudado para melhor.
As peças executadas têm cerca de 20 minutos de duração cada, o suficiente para aguçar os sentidos, sem exigir demais dos ouvintes, o que é bem diferente de trabalhos clássicos de música concreta, que costumam demandar mais e ter longas durações. Ou seja, já foram pensadas para o mundo de hoje, em que atenção é uma moeda muito valorizada.
Diferentemente de uma galeria tradicional, a ideia não é vender as obras, mas a experiência. Quando abrir, vão ser colocados ingressos para as sessões, além de também haver a possibilidade de vistas ao espaço. A precificação ainda não foi definida. “Mas não vai ser algo que impeça as pessoas de virem”, diz Ferreira. As sessões devem seguir o mesmo rito das feitas para convidados: duas obras por dia, apresentadas de forma intercalada para dois grupos diferentes. Como argumenta Ferreira, “você entra num outro espírito” ao sair e voltar entre as duas peças. Dá tempo de digerir a obra, conversar e também se preparar para a próxima.
Por que, como diz Picorelli, quando se está na sala, “o tempo dá uma warpada”, em referência ao conceito de alteração da percepção temporal. Ou como observa Raoni Cruz: “Quando você da sala, fica meio tonto”. Nas duas visitas para fazer esta reportagem, saí com a sensação de ter ido a um playground para adultos. Cruz concordou na hora: “Total, é um laboratório”.
Um olho na Copa, um na política. E ainda sobra tempo para arqueologia. Confira as mais clicadas da semana pelos leitores:
1. g1: Os memes da derrota da Alemanha para o Paraguai.
2. CNN: Infográficos que explicam o terremoto na Venezuela.
3. Meio: Ponto de Partida — A tropa de Michelle.
4. DW: Arqueólogos descobrem cidade maia “virgem” no México.
5. Meio: O Compara Pesquisas, feito em parceria com o Instituto Ideia, está ampliado e atualizado.






























