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Edição de Sábado: O maior jejum da história

Foto: Charly Triballeau/AFP
Foto: Charly Triballeau/AFP

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A reflexão sobre as causas do nosso maior jejum de títulos de Copas — seis edições — é complexa, porque o brasileiro sequer está acostumado a entender que em nenhum outro país existe o conceito de “perder a Copa” como sinônimo de “terminar em qualquer posição que não seja o título”.

Todos os outros países conhecem, claro, o conceito de ir mal ou ir bem em uma Copa, este último conceito subdividido em várias possibilidades, das quais o título é apenas uma. Tanto ir bem como ir mal são conceitos que variam de país para país: na Áustria, teria sido um grande sucesso chegar às quartas-de-final. Na Inglaterra, em 2026, já não.

O brasileiro, por outro lado, trabalha em um mundo binário. Para ele, existem as Copas que ganhamos e as Copas que “perdemos”, como se uma competição com 16, 24, 32 ou 48 equipes fosse um cara-ou-coroa em que só há dois resultados possíveis.

O brasileiro vive na premissa tácita de que ele tem algum direito divino de ser campeão e, se não o foi, alguma catástrofe ou traição aconteceu. A tarefa seria localizar a grande causa que nos tem impedido de realizar nosso destino. Manter essa premissa sem questioná-la é garantia de terminar com alguma explicação simplista e unidimensional.

Complicando mais as coisas está o fato de que o Brasil não está entre as nações que realmente amam o futebol. Qualquer um que haja vivido o futebol internacionalmente pode atestar: quem gosta de futebol são, por exemplo, os argentinos e os ingleses. Os brasileiros gostam, sobretudo, de ganhar, coisa bem distinta. As hordas que, mesmo sem entender de cinema, se dedicam a atacar qualquer crítico de um filme brasileiro que esteja concorrendo ao Oscar são um entre muitos indícios desse fenômeno.

Este texto faz um balanço dos 28 anos sem títulos mundiais que completaremos na próxima Copa e questiona a premissa do destino manifesto brasileiro. Ou seja, ao elencar aqui os erros cometidos nestes 24 anos, não pressuponho que, se eles não tivessem sido cometidos, teríamos sido campeões. Não, não há garantias.

É um jogo e, apesar de que no futebol de clubes as disputas estão cada vez mais desiguais, no futebol de seleções as competições estão cada vez menos desiguais. Aumentou o número de equipes que disputam no topo. Trinta anos atrás, essa lista não incluía Portugal, Espanha, França ou Inglaterra. Também aumentou o número de potências intermediárias fortes o suficiente para, a qualquer momento dado, derrubar uma das favoritas. Trinta anos atrás, essa lista não incluía Japão, Noruega, Marrocos ou Croácia.

Essa é a primeira coisa que há que se entender: a globalização do negócio futebol tornou o título da Copa do Mundo uma façanha muito mais árdua e difícil.

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O mundo mudou, mas a autopercepção do brasileiro no futebol ainda vive em 1958, 1962 e 1970. Esse foi o período áureo em que o Brasil passou a acreditar que havia vencido três de quatro Copas por causa da ginga, da inventividade, da individualidade e da improvisação dos jogadores brasileiros. Recebendo a liberdade de jogar, eles venceriam os fisicamente aplicados e taticamente disciplinados cinturas-dura europeus.

Essa gosma ideológica já era falsa na década de 1960. Aplicada a 2026 como fórmula de sucesso, é apenas um delírio sem relações com o mundo real. O Brasil venceu três Copas em 12 anos não apenas porque possuía jogadores extraordinários como Pelé, Garrincha e Tostão. O Brasil venceu três Copas em 12 anos também porque estava na vanguarda tática e organizativa de seu tempo.

Para a Copa de 1958, o Brasil inovou ao 1) levar médico, dentista, fisioterapeuta, psicólogo e olheiro; 2) observar com antecedência as possíveis sedes na Suécia, escolhendo com rigor a mais adequada; 3) conceber a linha de quatro zagueiros, que resolvia problemas defensivos próprios do futebol dos anos 1950; 4) como consequência da própria linha de quatro, inventar a marcação por zona, que ninguém usava; 5) criar uma formação tática na qual um dos pontas (em 1958 e 1962, Zagallo, e em 1970, Rivellino) recuava, fechava o meio e produzia superioridade numérica para sua equipe naquele setor.

Mas, na mitologia circulada no país desde então, toda essa dimensão tática e organizativa foi esquecida quando se explicam aquelas vitórias. O boleiro brasileiro médio acredita que vencemos porque “tínhamos craques” e porque “Pelé e Garrincha eram gênios.”

O fato de que as duas orações colocadas entre aspas sejam verdadeiras não significa que sejam suficientes para explicar as vitórias de 1958, 1962 e 1970.

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De lá pra cá, o que aconteceu? Muita coisa, mas, se eu tivesse que resumir, eu diria o seguinte: o mundo foi avançando, aperfeiçoando-se, aprendendo, em grande parte conosco. Quase todo mundo adotou a marcação por zona e a linha de quatro defensores.

Nós, por outro lado, fomos nos enfiando na soberba e no umbiguismo, e permitindo que nossa tradicional aversão ao estudo fosse prejudicando a formação de técnicos. No resto das potências futebolísticas, a preparação de uma equipe de alto nível foi passando a ser uma tarefa cada vez mais especializada, na medida em que o futebol ia se tornando um esporte mais rápido e mais gerenciado.

De lá pra cá, voltamos a ganhar a Copa duas vezes, em 1994 e em 2002. Como vivemos no universo binário — ou ganhou a Copa e tudo está certo ou perdeu a Copa e tudo está errado —, algumas características dessas seleções vitoriosas foram copiadas e fracassaram. Em 2006, o Brasil trouxe de volta o técnico do tetra, Carlos Alberto Parreira. Em 2014, o Brasil trouxe de volta o técnico do penta, Luiz Felipe Scolari, o Felipão. Em ambos os casos, com dois técnicos já defasados, o Brasil teve atuações incompatíveis com o talento do plantel que tinha em mãos (em 2006) ou apresentou um time medíocre, que sofreu a pior humilhação da história (em 2014).

No futebol, nós desconhecemos o planejamento a longo prazo. Como a cultura do amor ao jogo, que sustenta projetos a longo prazo, é sufocada pela cultura da vitória a qualquer custo, os técnicos brasileiros já trabalham com isso em mente. É impossível planejar a longo prazo, porque esse planejamento incluiria experimentos, tropeços e derrotas, até que se firmasse. Como as diretorias dos clubes precisam de um bode expiatório, os treinadores são demitidos no Brasil com uma frequência desconhecida em outras ligas.

Permanentemente jogando para defender seus empregos, os treinadores armam equipes dedicadas a ganhar a qualquer custo: fazendo cera, exercendo pressão sobre a arbitragem, simulando faltas, e praticando o antijogo quando tomam a vantagem no marcador. O resultado é que o Campeonato Brasileiro é feio e penoso de se assistir, apesar de o nível técnico dos jogadores ser superior, por exemplo, ao do Campeonato Argentino. Nossos jogos mantêm o interesse apenas para quem torce pelos dois clubes que se enfrentam ali. Mesmo que formemos uma liga de clubes que venda os direitos de transmissão do campeonato a outros países, é pouco provável que muita gente se anime a assisti-lo.

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Reagimos maniacamente tanto às conquistas de Copas do Mundo como às “derrotas”, que é o nome que damos uniformemente a qualquer participação em Copas que não resulte em título. Quando vencemos, repetimos a fórmula, não necessariamente com o mesmo técnico, mas mantendo o fundamental da equipe e da filosofia que venceu quatro anos antes. Invariavelmente dá errado, porque o mundo já mudou, as outras equipes já evoluíram, e em muitos casos os jogadores que se repetem já deveriam ter sido substituídos. Quando não conquistamos o título (ou seja, quando “perdemos”, e espero ter demonstrado que usar essa nomenclatura é parte do problema), também reagimos maniacamente, deslocando-nos para o extremo oposto.

Em 2006, levamos à Copa da Alemanha, em ritmo de festa, a mesma geração do pentacampeonato de 2002, agora com jogadores acima do peso (Ronaldo, Adriano), ou consumidos por distrações extra-campo (Ronaldinho Gaúcho), ou envelhecidos e rendendo menos que seus reservas (Cafu, Roberto Carlos). Os treinamentos eram marcados para o horário do Jornal Nacional. Os jogadores treinavam em ritmo de exibição, com a obrigação de dar espetáculo para a arquibancada cheia. A seleção de Parreira em 2006 foi a do pagode e da euforia. Veio a eliminação para a França nas quartas-de-final, naquele que talvez tenha sido o 1 x 0 mais contundente que uma seleção grande aplicou em outra em toda a história das Copas. A França não passou um susto sequer.

Em 2010, dado o fracasso da seleção do pagode, da euforia e da abertura de tudo à imprensa, passamos à seleção de Dunga, militarizada, proselitista em matéria religiosa, e agressiva com a imprensa. Dunga, um notório direitista, chegou a angariar apoio da esquerda, porque afinal ele “peitava a Globo”. Pilhada e descontrolada, a seleção desmoronou emocionalmente no primeiro jogo em que enfrentou alguma adversidade, e caiu de novo nas quartas-de-final, desta vez para a Holanda. Saímos com jogadores expulsos por agressões covardes contra adversários (Felipe Melo) ou em protesto histérico, dedo em riste, contra uma arbitragem que havia sido correta (Robinho).

Dado o fracasso da seleção militarizada e inimiga da imprensa, em 2014 voltamos ao extremo oposto e chamamos Felipão, em uma tentativa de reedição da “família Scolari” que havia conquistado o pentacampeonato. A escolha não fazia o menor sentido, já que Felipão estava defasado e não vinha se saindo bem nas competições nacionais com o Palmeiras. A imprensa foi chamada a participar da euforia da organização da Copa no Brasil e, mais uma vez, as fragilidades da equipe foram sendo mascaradas. Avançando de fases por casualidade (nas oitavas, contra o Chile) ou por descarados auxílios da arbitragem (nas quartas, contra a Colômbia, e na fase de grupos, contra a Croácia), o Brasil chegou às semifinais mesmo estando bem longe de ter uma das quatro melhores seleções. A partida contra a Alemanha, disputada no Mineirão, você sabe quanto terminou.

Eu poderia continuar até o presente, mas suponho que a ideia tenha ficado clara. O problema não é cada escolha em particular, mas uma lógica baseada em reações maníacas, oscilações esquizofrênicas entre euforia e depressão, e a busca de explicações peremptórias e monolíticas para a derrota em um jogo de futebol.

No caso da eliminação de 2026, as redes sociais produziram uma litania de explicações alucinadas: fomos eliminados porque os jogadores agora vão para a Europa e perdem sua brasilidade (como se a seleção mais vitoriosa dos últimos anos, a Argentina, também não fosse composta por sul-americanos que jogam na Europa), porque os jogadores agora são evangélicos e não católicos (sem comentários), porque os jogadores só querem fazer tatuagens e postar a vídeos no TikTok (como se os campeões franceses e argentinos também não tivessem tatuagens e TikTok), ou porque, na explicação do americano Brian Mier, os jogadores antes tinham samba no pé, já que ouviam samba, e agora ouvem o gospel que os fez perder o samba no pé. É como estar em um manicômio a céu aberto.

No mundo do futebol realmente existente, as raízes das participações decepcionantes em Copas se encontram em múltiplos fatores, alguns dos quais foram mencionados aqui, e outros não. Na formação de jogadores, competimos em péssimas condições com projetos profissionalizados como os de França e Inglaterra, e mesmo com o de Marrocos. Cuidadosas operações de scouting levam a Inglaterra, por exemplo, a produzir jogadores para posições específicas. Nada semelhante existe no Brasil, onde o desenvolvimento de talentos fica a cargo dos clubes, tendo como horizonte a negociação dos direitos federativos do jovem atleta com o mercado europeu. Como as categorias de base brasileiras se orientam para ganhar a qualquer custo e acumular títulos, e não a desenvolver jogadores a longo prazo, chegamos à situação atual, em que praticamente não produzimos meio-campistas. É muito mais fácil e rápido adaptar o canhoto talentoso à ponta, onde as valências que ele terá que aprender serão reduzidas, ele poderá se destacar mais, e o clube poderá negociá-lo por algum dinheiro que tape o rombo financeiro, e se reinicie todo o processo.

A nossa principal competição, o Campeonato Brasileiro, não é organizada por uma liga independente de clubes, como na Inglaterra, França, Itália, Espanha ou Alemanha. O campeonato continua pertencendo à CBF, uma entidade de direito privado que mantém controle sobre um patrimônio imaterial público, a Canarinho. Sujeita a toda sorte de interferências políticas, a CBF responde a caciques locais, que controlam as federações estaduais. O resultado é que o Campeonato Brasileiro, cujo nível sofre pelas razões elencadas acima, termina sendo uma competição que não é muito assistida em outros países, quando na realidade, mesmo com todos os seus problemas, teria nível para sê-lo.

Esse é o complexo quadro. Em cada canto do problema, reverberam-se os efeitos de problemas situados em outro canto. A nossa própria cultura futebolística precisa ser colocada em xeque.


*Idelber Avelar é professor de estudos latino-americanos na Universidade Tulane e autor de vários livros sobre literatura e política. Escreve regularmente sobre futebol e co-apresenta o “Meio de Campo”.

Uma odisseia tecnológica pelos filmes

A inventividade humana fez com que fosse possível registrar as primeiras imagens em equipamentos rústicos, como uma câmara escura que imprimiu as primeiras gravações em uma placa de cobre revestida de prata, até as mais avançadas tecnologias atuais. Desde a criação do daguerreótipo às primeiras câmeras fotográficas portáteis, passando pelas filmadoras, cada passo tecnológico marcou a história da arte, sobretudo a fotografia e o cinema. Após mais de um século desde a criação dos filmes, ainda tem quem se proponha a dar vazão à criatividade, trazendo novas tecnologias para renovar as maneiras de se contar uma boa história.

É o que poderemos testemunhar com a estreia de A Odisseia, novo filme de Christopher Nolan, estrelado por Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Lupita Nyong'o, Robert Pattinson, Charlize Theron e Jon Bernthal. O longa chega aos cinemas na próxima quinta-feira. É o primeiro em formato narrativo a ser filmado inteiramente com câmeras IMAX. Mas não é a primeira vez que Nolan utiliza essa filmadora. Batman: O Cavaleiro das Trevas se tornou o primeiro filme de Hollywood a utilizar esse equipamento em cenas de ação. Já Oppenheimer, vencedor do Oscar em 2023, foi o primeiro a usar película IMAX preto e branco de 65mm.

Mas havia um impeditivo para fazer uma obra inteira com a mesma tecnologia: o barulho. As câmeras MSM9802 de 65 mm são muito barulhentas e pesadas, tornando praticamente impossível usá-las em gravações contendo diálogos, principalmente em planos mais fechados com os atores. Seu enorme rolo de filme é prensado a vácuo para movimentar 15 perfurações dentro daquela caixa. O ruído é alto o suficiente para atrapalhar a atenção dos atores e intimidar figurantes. Recentemente, Tom Holland contou ao Fandango que achava que Nolan havia odiado sua atuação no primeiro dia de filmagem de A Odisseia porque ele ficava gritando “corta!” repetidas vezes ao longo da mesma cena. Só depois ele descobriu que o real motivo era técnico — o rolo de filme só durava três minutos, exigindo a troca. Aliás, Nolan usou mais de 600 mil metros de película em 91 dias de gravações. Estima-se que ele tenha gastado cerca de US$ 3 milhões só em rolos de filme. Épico.

Qualidade 18K

Essa obsessão pela IMAX tem a ver com a qualidade de imagem que essa mídia proporciona. Se antes da digitalização do cinema as películas eram exibidas em 35mm de quatro perfurações, as novas versões chegam a 70mm com cinco perfurações, proporcionando o dobro de imagem horizontalmente, além de melhorar a resolução, chegando a 4K. Mas a tecnologia IMAX vai muito além, com um filme de 70mm com 15 perfurações, o que representa uma qualidade absurda de imagem, que pode chegar a 18K de resolução.

Imagine que cada segundo de filmagem gera 24 quadros e que todos esses fotogramas precisam passar na mesma cadência de um 35mm convencional. A velocidade do filme percorrendo o sensor precisa ser de 1,7 metros por segundo, ou 5,6 km/h. Isso gera uma barulheira tremenda. O ruído equivale a ligar a câmera ao lado do aspirador de pó, enquanto os atores tentam manter um diálogo a meio metro de distância. Por muito tempo isso fez com que filmagens de cenas em close com diálogos fosse inviável em IMAX. Até que Nolan e seu diretor de fotografia, Hoyte van Hoytema, pediram à própria equipe da IMAX que criasse uma tecnologia que deixasse as câmeras mais silenciosas — ou pelo menos, com um som utilizável no cinema.

A solução foi o desenvolvimento de uma estrutura chamada “blimp”, um sistema de isolamento acústico que reduz significativamente o ruído produzido ao acoplar a câmera dentro desse equipamento, enquanto os atores atuavam com a ajuda de espelhos ao redor do aparato.

Não foi a primeira vez que a dupla buscou inovar nesse formato. Para filmar as cenas em preto e branco no longa Oppenheimer, Hoytema precisou entrar em contato com a Kodak para pedir que produzissem rolos de película preto e branco de 65 milímetros para ser usado em câmeras IMAX, o que não existia até aquele momento. Ele conta que também foi preciso reformular as filmadoras, cujo revestimento deixava vazar luz ao filme.

O resultado dessa nova empreitada de inovação parece ter dado certo. A pré-estreia de A Odisseia realizada nesta semana levou uma onda de elogios da imprensa especializada, exaltando o longa. A produção foi classificada como “uma conquista impressionante” e uma “direção cinematográfica impecável”. Aliás, o site oficial do filme disponibilizou um guia que mostra como ele será apresentado nas salas, desde as IMAX 70mm até as de formato convencional, de 35mm.

Adeus, chroma key

Nas últimas décadas, outras inovações tecnológicas têm alterado o jeito de fazer cinema e séries de TV. Uma das novidades muito utilizadas são os painéis de LED, que têm sido ótimas alternativas para substituir as paredes verdes usadas para o chroma key, tecnologia em que o fundo é substituído graficamente para outras imagens, dando a sensação de imersão, hoje banalizada como filtro de qualquer rede social.

Chamados de Volume, esses verdadeiros paredões de LED substituem cenários fictícios em outras galáxias, como os da série live-action de Star Wars: The Mandalorian. Em parceria com a Industrial Light & Magic e a Epic, os produtores desenvolveram uma tecnologia de videowall de 6,4 metros de altura e 22,8 metros de diâmetro operado por sete máquinas que projetam os cenários na tela. Já a Amazon criou seu próprio Stage 15, com um telão de 25 metros de diâmetro composto por 3 mil painéis de LED e 100 câmeras de captura de movimento operadas pelo departamento de produção virtual da Amazon MGM Studios.

Entre as vantagens do Volume estão uma melhora na iluminação dos personagens, que ganha aspectos mais naturais por refletir as luzes vindas do próprio cenário, além de ajudar os atores na construção das cenas, já que não precisam imaginar o ambiente em que se passa o filme, como ocorre no chroma key. Como as câmeras captam o cenário e os atores simultaneamente, um tempo de pós-produção também pode ser poupado. Filmes como Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania, Tron: Ares e Batman, de Matt Reeves, já se beneficiaram dessa tecnologia.

Mais estabilidade

Uma outra inovação que se popularizou em programas de TV e atualmente pode ser vista nas transmissões de jogos de futebol começou há 50 anos, quando Garrett Brown usou sua invenção, a Steadicam, pela primeira vez, no filme Esta Terra É Minha (Bound for Glory), de Hal Ashby. O equipamento divide o peso da câmera no corpo do operador, dando mais estabilidade, mobilidade e liberdade ao cinegrafista ao longo das cenas de ação. Sua portabilidade facilitou as gravações, que antes dependiam da montagem de gruas e de pesados e longos trilhos ao longo das locações.

A Steadicam possibilitou que novas maneiras de gravar planos sequência fossem criadas. As histórias também ganharam novas dinâmicas nas cenas, que agora podem acompanhar personagens em intenso movimento, sem dar aquele efeito de “câmera nervosa”. Foi a partir daí que surgiram momentos emblemáticos do cinema, como a cena de Sylvester Stallone correndo pelas ruas da Filadélfia em Rocky, ou a de um garoto em um triciclo passeando pelos corredores do Hotel Overlook no clássico filme O Iluminado, de Stanley Kubrick. De Martin Scorsese a Paul Thomas Anderson, os grandes diretores já usaram o recurso em algum momento.

Seja desenvolvendo novos equipamentos ou aprimorando tecnologias existentes, ainda devemos ver desabrochar novas maneiras de fazer cinema nos próximos anos, considerando que nem citamos aqui as mudanças que ainda estão por vir com a adesão das ferramentas de inteligência artificial, seja para o bem ou para o mal dos profissionais do setor audiovisual. De olho nas telas.

Cruzada contra o algoritmo

“Chegou o fim de semana, todo mundo vai sair / Só não vai Jair, só não vai Jair / Eu vou pra rua, tomar cana com os amigos, vou curtir / Só não vai Jair, só não vai Jair”. Você pode nem conhecer o Chinaina, mas com certeza, na época da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, deve ter ouvido esse frevo satírico em alguma rede social.

A letra, feita em parceria com o podcast Medo e Delírio em Brasília, virou hino instantâneo nas redes. É mais um capítulo na carreira de Flávio Augusto Câmara, o Chinaina, que desde os tempos do Sheik Tosado e do manguebeat nunca se contentou em ser só cantor. Foi VJ da MTV Brasil entre 2011 e 2012 e hoje comanda transmissões de festivais como Rock in Rio e Lollapalooza pelo Multishow e pelo Canal Bis, sempre com um figurino que vira assunto à parte, montado com a mesma vontade de experimentar que rege sua música. “Sou a maior alegria dos figurinistas, estou totalmente aberto a usar de tudo”, ri.

É essa mistura de curador, apresentador e artista que ele leva para o Caça Joia Clipes, seu programa mais recente no Canal Futura e no Globoplay. Ao lado da diretora Pamella Gachido, Chinaina assistiu a mais de 4 mil videoclipes enviados por artistas independentes de todo o país até chegar aos 176 selecionados para a temporada, um trabalho de curadoria manual, quase artesanal, que ele defende como resposta direta à “ditadura do algoritmo” nas plataformas de streaming. “Foi o que coube, mas muita coisa legal ficou de fora.” Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Como você enxerga a importância da curadoria humana, focada na qualidade artística, em oposição ao que a gente vê nas plataformas, essa ditadura do algoritmo? O que o humano vê que os algoritmos ignoram?

A primeira coisa é talento. A máquina jamais vai identificar talento. Ela faz um cruzamento de dados, de números, é tudo focado em dado e número. Então, se deixa de fora muito artista interessante porque ele tem poucos números. Talvez, se o Sepultura tivesse nascido hoje, o Chico Science tivesse nascido hoje, estariam fora dessa gama do algoritmo. Você tem o respeito a esses artistas, mas eles não têm números tão expressivos quanto as divas pop do momento. A gente teve um cuidado com equidade de gênero, de buscar artistas de todo o país. É um mapeamento de quase todos os estados do Brasil, de descobrir cena mesmo. E para isso é só ouvindo, só sentando e assistindo aos clipes. A gente descobriu uma artista chamada Camaleoa que é tipo a Britney Spears do Ceará: os clipes na raça, ela produzindo tudo. Quando é que uma artista dessas teria espaço? As últimas divas pop que a gente tem são do Rio e de São Paulo.

E a questão de gêneros? Você tem regras para delimitar esse campo da música independente?

A gente não tem sertanejo, não tem gospel, porque acredita que esses estilos já têm um espaço muito massificado. A gente queria abrir espaço para outros artistas. Também foi ponto de corte clipe com música de ostentação, porque já existe esse espaço. Prefiro dar vez e voz a quem tem o que dizer, não a quem quer falar do carro novo ou do relógio. E música que coloca a mulher num lugar muito escroto também a gente acha que não tem porquê.

Ou seja, funk e trap tiveram um corte grande, né?
Demos uma cortada grande. Tem artista de trap, mas artista que tem o que dizer. O Léo da Bodega, que faz trap lá de Olinda, os clipes dele são lindos, o som que o cara faz também é muito interessante. Não é que não tem artista de trap, tem, mas dentro de um recorte que a gente tava mais interessado em mostrar.

Essa galera de 20 anos de hoje tem uma energia para fazer as coisas maior do que a de outras gerações. Também acha que hoje tem uma energia diferente nessa molecada?

Acho que tem energia diferente, e acho que a gente está muito próximo de a música independente furar a bolha de novo, como aconteceu nos anos 1990. Não se sustenta esse esquema do algoritmo, uma hora o próprio público vai querer. Você pega essa cena nova de São Paulo, com o Pelados, a Sophia Chablau, a Dupla 02, é uma molecada com sangue nos olhos. Me lembra muito de quando eu comecei minha carreira: junta três, quatro bandas, pega um lugar, um leva o amplificador, outro leva a bateria, se junta e faz o show. É uma molecada muito mais inteligente do que a da minha geração, porque tem muito mais informação. Eles conseguem gerir a carreira deles, não caem mais em contrato roubada como a gente caía.

Você é pai de um artista independente também, que muito por méritos dele, chegou até o Lollapalooza com o projeto Entropia-Entalpia, toca com o Teto Preto. Como você vê a gestão dessa carreira de jovens como o Matheus Câmara?

A história do Matheus é muito engraçada. Ele tocava comigo e tava ganhando uma graninha, quando era moleque com 14, 15 anos, feliz da vida. Aí eu falei: “agora eu vou ter que tirar você da minha banda”. Ele: “rapaz, como assim?”. Eu disse: “você precisa achar o seu som e o seu caminho, senão você vai ser sempre o meu filho tocando guitarra comigo, e eu acho que você é talentoso demais pra ficar só nisso. Por isso eu tô te demitindo”. Na hora ele não entendeu direito, ficou chateado. E aí o que ele fez? Foi pra um lugar completamente diferente de tudo que eu fazia, a música eletrônica. Os toques que eu ia dando a ele eram os mesmos que eu dou pros artistas independentes: ache um som diferente, faça uma parada para se destacar, não pare de trabalhar nem um segundo. A gente leva um monte de porta na cara, mas uma hora essa porta vai abrir. Ele chegou no Teto Preto, três turnês europeias, fazendo as paradas solo também. Foi ele mesmo que foi buscando o caminho. Desde sempre ele viu que não era fácil, porque viu o pai dele se fodendo todinho pra conseguir as paradas. Acho que a influência que eu tive foi muito ele ver eu trabalhando diariamente. É aquele orgulho de quando os filhos ultrapassam os pais.

E como estão os seus outros projetos? Vi que vai ter show do Del Rey na Casa de Francisca neste mês.

O Del Rey é aquela brincadeira que a galera começou a levar muito a sério. O público leva mais a sério a banda do que a gente mesmo. A gente teve que se organizar, porque o Del Rey vai num espectro que vai de festa de doidão a aniversário de 70 anos do seu Paulo. E, querendo ou não, a grana que eu ganhei no Del Rey me ajudou a fazer os discos que fiz até hoje, me ajudou a melhorar muito como cantor. Agora eu tô com um disco terminando, ainda não sei o nome. E com um outro EP de frevo pronto, o volume dois do Carnaval da Vingança, sempre tive esse sonho de gravar minhas músicas, ou músicas que eu gosto, com orquestra de frevo, como se fazia antigamente. O volume dois está pronto desde o ano passado, esperando a data oportuna pra lançar mais perto do carnaval. Não tenho pressa pra lançar as coisas. Gosto de fazer com calma, sem essa pressão de mercado. Preciso lançar mais um disco autoral, tem quase dez anos que eu não lanço um, mas sem agonia. Essa pressa nunca me ajudou. É uma pressa que atrapalha os artistas no geral, essa pressão que a gente tem do algoritmo, de ter que lançar algo. Ninguém é criativo todo dia. Prefiro estudar dez anos e ter um álbum que seja falado durante muito tempo do que só lançar mais um trabalho porque tenho que cumprir um espaço no tempo.

Copa e política, política e Copa. Neste ano, não tinha como ser diferente. Eis os mais clicados pelos leitores do Meio dessa semana:

1. g1: Os memes da derrota do Brasil para a Noruega.

2. Meio: O Central Meio revelou os bastidores da participação de Flávio Bolsonaro na audiência do USTR, em Washington.

3. Meio: Pesquisa Meio/Ideia mostra diferença estável entre Lula e Flávio.

4. Fantástico: Leitura labial revela o que Neymar disse ao goleiro norueguês.

5. Meio: De Tédio a Gente não Morre — Devassa contra Malu Gaspar.

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