O inimigo de Flávio
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Em dias como hoje, desse jogo Brasil x Japão, eu não sei vocês. Mas eu não sei como sobrevivo a cada quatro anos a uma Copa do Mundo. O pior é que, olha, diferentemente de 2022, de 2014, esse ano eu estou achando que dá pra Seleção. Aí fica tudo tão mais duro, sabe? Fecha, deixa estar, vamos falar de Michelle Bolsonaro. Você entendeu o que exatamente está acontecendo? Bem, ninguém pode dizer que entendeu. Por um lado, a família Bolsonaro tem imenso poder sobre um pedaço importante do eleitorado. Por baixo, um quarto dos eleitores brasileiros estão mais do que dispostos a votar em qualquer candidato com esse sobrenome. Na pesquisa Nexus, divulgada hoje, o segundo turno Flávio x Lula já está em empate técnico de novo.
Bem, por outro lado eles realmente não parecem ter o mesmo objetivo. Mesmo. Michelle, Flávio e Eduardo simplesmente não parecem ter o mesmo foco. Você vê por exemplo o Eduardo, lá nos Estados Unidos. Ele não atua sozinho, está sempre cercado dos fieis escudeiros. Allan dos Santos dum lado, Paulo Figueiredo do outro. Olha o Paulo Figueiredo, o que ele disse, numa live hoje: “Mulher vota estatisticamente muito mal.” Você acha essa declaração ruim? Pois é, ele não parou aí. “Principalmente mulheres solteiras, as mulheres casadas tendem a acompanhar o voto do marido.”
Pois é. Existe machismo. Existe misoginia. E existe Paulo Figueiredo. O braço direito de Eduardo Bolsonaro. A primeira reação ao ouvir isso, qual é? Como é burro o Paulo Figueiredo. Mas como é burro. E dá até um conforto pensar isso, mas não é, né? Ninguém é uma toupeira tão grande assim.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu por uma nesga de votos o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2022. Pra entender o que aconteceu ali, e o que tem de acontecer diferente nesta eleição, é preciso voltar a 2018, quando Bolsonaro venceu Fernando Haddad. Voltar lá e fazer a seguinte pergunta: que eleitores votaram em Bolsonaro em 18 e aí mudaram de ideia para votar em Lula, na eleição seguinte. Porque estes são os eleitores que Flávio precisa recuperar.
Pois bem, dois grupos. Um eleitor é o eleitor liberal, centrista mesmo, da classe média urbana tradicional. O voto que foi tucano raiz. É um eleitor que não quer o PT no governo, mas que ganhou horror da grosseria e ameaça democrática que representou o governo do capitão. Para este eleitor, Flávio precisa sinalizar moderação. E tem outro eleitor. Ou melhor, outra eleitora. Mulher, conservadora, periférica, evangélica. Ela teme o PT, principalmente teme o identitarismo de esquerda. Mas preza por políticas públicas de educação e saúde. E tem horror de arma. Essas mulheres criaram horror a Jair. É exatamente este o público de Michelle. Este é o centro do público de Michelle. É por causa deste voto, muito, muito precioso, que Flávio precisa de Michelle. E, ninguém se engane, Michelle sabe muito bem disso.
Então vamos lá. Qualquer profissional de marketing eleitoral de terceira prateleira, aqueles que trabalham para prefeito do interior, sabe que o voto da mulher periférica e evangélica é um dos dois votos mais importantes tanto para a campanha Flávio quanto para a de Lula. Paulo Figueiredo não sabe? Claro que sabe. Paulo Figueiredo é uma toupeira? Não a esse nível, né? Não nesse ponto. Disso ele sabe. Então por que esse cara vai lá atiçar a Michelle no meio desta crise? Seria por que Eduardo Bolsonaro quer sabotar a campanha do irmão? Por que Eduardo fica dando tiros no pé, criando crises nos Estados Unidos que em nada ajudam Flávio? Opa.
Então talvez Michelle não seja a única com o sobrenome Bolsonaro atuando contra a candidatura Flávio? O que diabos quer esta família, afinal de contas? Vamos desvendar esse redemoinho. Porque a resposta é óbvia, né? A família quer poder. O problema é que, para cada um, poder quer dizer uma coisa diferente.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Abri esse episódio dizendo que ninguém entendeu direito o que a Michelle está fazendo agora. Pois, no sábado, no Meio, a Giullia Chechia mostrou o que ela vem fazendo até aqui. Ela foi até o nono andar da sede do PL, em Brasília — longe da gritaria do Zé Trovão, do chapéu, do Nikolas, do “paz do Senhor” — e achou lá em cima uma revolução silenciosa. Chama-se Projeto Alicerça Brasil. É uma máquina que recruta mulher conservadora misturando três coisas: a célula da igreja evangélica, a venda porta a porta da Tupperware e a gamificação das redes, com pin colorido por nível de engajamento. Já são 431 grupos, cinco mil e duzentas mulheres — construídas na margem, convergindo pro centro. Custou 16 milhões de reais, o dobro do que o PT pôs na ala feminina dele. É essa máquina que faz da Michelle o que ela é: não a madrasta da novela, mas a única Bolsonaro com tropa própria. Mais do que isso. Michelle está criando, pela direita, o maior movimento político feminino realmente organizado do Brasil Está tudo na Edição de Sábado. Você não entende o que realmente está sendo organizado para o futuro da política brasileira sem entender que existe isso sendo feito na frente de todo mundo, sem que a maioria das pessoas esteja percebendo. Assine o Meio Premium — quem leu essa reportagem não comenta a briga dos Bolsonaro sem ter visto a máquina por dentro.
E este aqui? Este é o Ponto de Partida.
Três peças disputam o comando do bolsonarismo. Flávio, Eduardo, Michelle. Para Eduardo, poder é a chama. Ele está condenado, inelegível, não tem caminho de urna. O que ele tem é ser o dono do bolsonarismo como movimento: a rede digital, a aliança com Donald Trump, os Estados Unidos radicalizados à direita. Allan e Figueiredo porque o bolsonarismo como movimento dá dinheiro pela internet, dá dinheiro pelos trambiques via Master. Mas esse ativo só vale enquanto o bolsonarismo for radical e estiver em guerra. Um Flávio eleito é Centrão no poder, um governo mais corrupto que Jair, é Eduardo de figurante para sempre. Logo Eduardo tem incentivo racional para manter o fogo aceso — e atiçar Michelle mantém a polarização identitária quente, que é o clima onde ele reina.
Para Michelle, poder é o pedágio. Para ela, a vitória do Flávio não é um problema. Nisso, é diferente de Eduardo. Mas tem uma diferença. Flávio precisa dever esta eleição a ela, precisa ter consciência de que deve a eleição a ela, e para se eleger precisa ajudar a construir a base concreta de seu poder. Quer dizer, Michelle vem criando uma base de militância forte entre as mulheres conservadoras e evangélicas do Brasil. Agora, esta base tem de eleger gente. Três senadoras, deputadas federais. Fazer com que a principal bancada feminina no Congresso seja um mundo de Damares Alves. Se Flávio ganha, ótimo. Ela lidera uma bancada relevante em cima da qual poderá crescer mais politicamente. Se Flávio perde, ótimo também. Ela lidera uma bancada relevante, que tende a crescer. Michelle é a guardiã viva do nome enquanto Jair está preso, e dona do único voto que Flávio não consegue sozinho. Entregar isso de graça é virar coadjuvante. Segurar é botar preço — Senado garantido, peso no governo, e a porta de 2030 aberta.
Aí sobra o Flávio e o jogo que ele não está enxergando. Para Flávio, poder é o cargo. A cadeira, a faixa, o nome dele na urna em outubro. Ele não quer o movimento, como o Eduardo. Não está construindo uma base, como a Michelle. Ele quer ser presidente, e ponto. E é aqui que mora a cegueira: Flávio é o único dos três que precisa ganhar a eleição. Pensa comigo. Para o Eduardo, um Flávio no Planalto é o pior dos mundos — é o Centrão no poder, é a chama apagada, é ele de figurante pro resto da vida. Para a Michelle, dá no mesmo — ela sai maior, não importa se o enteado ganhe ou perca. Quer dizer, né? Dos três, o único cujo projeto inteiro vive ou morre naquele domingo de outubro é ele. Os outros dois tratam a vitória dele como opcional. E um deles joga contra.
E esse Flávio, ungido pelo pai, faz o quê? Se comporta como quem já ganhou. Humilha a Michelle — “você chegou ontem, não entende de política” — quando é justamente ela que tem o voto que falta pra ele. Deixa o Eduardo tocando fogo lá dos Estados Unidos, quando é esse incêndio que espanta as duas eleitoras que a gente viu no começo: a centrista e a evangélica da periferia. Flávio confunde duas coisas que não são a mesma. Ser escolhido não é ser eleito. Escolhido pelo pai ele já está — essa foi a parte fácil. Eleito, quem elege é exatamente quem ele está tratando como pedra no caminho. Ele acha que a guerra é com o Lula. Pois é. A guerra que pode liquidá-lo está sentada na mesa de jantar.
Nesse jogo entram uma incógnita parcial e uma total. A parcial é o único nesse tabuleiro que não tem o sobrenome Bolsonaro. O que deseja Valdemar da Costa Neto, o presidente do PL? Poder, para ele, é ter a maior bancada na Câmara dos Deputados. Isso quer dizer que ele seguirá como o presidente de partido com mais dinheiro para movimentar. Talvez, Flávio fora do Planalto e Michelle conquistando os votos que a direita não tem ainda seja até bom.
E, claro, tem o cara preso. O marido da Michelle, o pai daqueles dois. O que deseja Jair. Tudo indica que ele sabia do vídeo. Não teve poder para evitar ou quis mesmo este ataque ao filho? Que família, gente. Que família.
Repara no que sobra pra você nessa história. Flávio, Eduardo, Michelle, Valdemar — cada um quer um pedaço do poder, e cada um quer um pedaço diferente. Mas nenhum deles está disputando o seu voto pra servir. Estão disputando o seu voto como quem divide herança. A evangélica da periferia, o centrista de classe média — vocês não são o destino dessa política. São a moeda. E em outubro é essa moeda que vai dizer se o Brasil tem uma escolha de verdade, ou só o inventário de uma família. Que família, gente. Que família.


