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Quem manda no seu dinheiro

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Esta semana, o ministro Flávio Dino, do Supremo, mandou bloquear o dinheiro de dois homens. Um se chama Valdemar Costa Neto. O outro, Eduardo Cunha. Pois é. Deixa eu contar uma coisa que, aposto, a maioria de vocês já sabe. Tem um pedaço do dinheiro público — do nosso dinheiro — em que o presidente da República não manda mais. Quem manda é o Valdemar. E o Valdemar nunca foi eleito pra isso. Nunca. E não é pouca coisa, não: é dinheiro suficiente pra decidir se a obra aparece na sua cidade ou se não aparece. Ele, o Valdemar, não está sozinho.

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Olha, isso aqui não é uma história sobre a direita. Do outro lado, o governo Lula faz exatamente a mesma coisa — negocia emenda, libera verba, segura a base no voto do mesmo jeito. Cacique de esquerda, cacique de centrão, cacique bolsonarista, todos bebem da mesma fonte. O que eu vou contar não é a doença de um partido. Algumas pessoas vão logo dizer: ah, mas a esquerda faz menos. É verdade. A esquerda tem pouco mais de cem deputados numa casa com mais de quinhentos. O jogo das proporções é inclemente. Quem tem mais, faz mais. A doença não é de um partido ou de outro, a doença é do Congresso. Guarda isso.

Agora, quem é esse Valdemar? Você ouve muito o nome dele e não à toa. É um personagem e tanto. Hoje ele é o presidente do PL — o partido do Bolsonaro, o maior partido da Câmara. O partido que deve continuar sendo o maior partido da Câmara mesmo depois da eleição. Mas ele nem sempre foi bolsonarista. Valdemar foi condenado no mensalão, lá em 2012. Foi parceiríssimo do governo Lula, dos petistas. Chegou a dividir cela com o José Dirceu, o homem forte do primeiro governo Lula. O principal estrategista do PT. Pois é. E aí, anos depois, quando o vento virou, ele virou junto — pegou o PL, entregou pro Bolsonaro, virou bolsonarista. Sabe no que o Valdemar acredita? Em nada. Ele acredita em poder, e no dinheiro que o poder dá acesso. É essa a bússola. A única. Ele não está sozinho na Câmara, no Congresso, em Brasília.

E se você acha que precisa estar no cargo pra mandar, olha o Cunha. Eduardo Cunha, aquele que presidiu a Câmara no impeachment da Dilma. Cunha foi cassado. Foi preso pela Lava Jato. Está fora da política oficial faz tempo. E mesmo assim, de fora, continua pelos restaurantes de Brasília, continua esbarrando nas mesmas pessoas de quando tina cargo, continua comandando bancada, dirigindo voto, apontando pra onde vai a verba. Um do velho petismo que virou PL. O outro, do centrão de sempre. Dois homens, nenhum dos dois no cargo que a gente imagina que decide — e são eles que decidem. Isso diz uma coisa: o poder, aqui, não é do cargo. É do cacique.

E de onde vem esse poder? Vem de uma palavra que você já ouviu mil vezes sem ninguém te explicar direito: emenda. Emenda obrigatória. Vamos lá, sem aula. Durante décadas, quem montava o Orçamento — quem dizia pra onde ia o dinheiro do país — era o Executivo, o presidente da República. O Congresso reclamava, negociava, mas a caneta era do presidente. Nos últimos anos, isso virou. O Congresso pegou pra si o poder de dizer pra onde vai boa parte do dinheiro. E tornou isso obrigatório — o governo é obrigado a pagar. É o que chamam de emenda de relator, emenda Pix, essas coisas. Na prática, é o seguinte: o cacique tem uma pilha de dinheiro público pra distribuir. E ele manda a bancada carimbar: essa verba vai pra tal cidade, pra tal obra, pra tal prefeito. Em nome de quem? Dele. Quem é rubro-negro sabe. Do senhor Valdemar. Não do deputado que assinou. Do homem que mandou o deputado assinar.

E aqui chega o ponto que fez o ministro travar tudo. Porque, veja, se o Congresso quer esse poder, tudo bem, ele pode. O Congresso tem muito espaço, pela Constituição, pra definir as regras. Mas com o poder vem a conta: transparência. E aí não tem. Ninguém sabe direito quem mandou o quê. Quanto dinheiro chegou em cada lugar. Se foi gasto, como foi gasto, se sumiu no caminho. São bilhões de reais — bilhões — andando pelo país sem rastro, sem nome, sem digital. É esse o buraco. O ministro Flávio Dino não bloqueou o dinheiro do Valdemar e do Cunha pra perseguir ninguém. Bloqueou porque não dá pra fiscalizar o que é invisível. E olha, nisso ele está certo. Não interessa o que você ache do Supremo — e tem muita coisa pra achar. A exigência é simples e é justa: se é dinheiro público, a gente tem que poder ir lá na cidade ver no que ele foi gasto. Ver a escola erguida, a enfermeira contratada, a viatura comprada.

Agora traz isso pro seu colo. É o seu dinheiro. É a obra que aparece — ou não aparece — no seu município. É a ponte, o posto de saúde, a escola que sai do papel porque um cacique decidiu, ou que não sai porque ele decidiu não. E você não consegue rastrear nada disso. Você nem sabe que foi o Valdemar, um homem em quem você nunca votou, que decidiu por você. Pois é. E aí vem a pergunta que fica: por que a gente não consegue cobrar ninguém por isso? Quando a gente faz uma pesquisa de opinião, botamos lá a pergunta. Você está gostando desse governo? Aí ouve a resposta. A gente nunca põe a pergunta você está gostando do trabalho do Valdemar. Que trabalho? O que foi que ele fez? O que ele decidiu? Por que um tem de prestar contas e o outro não tem? Vem comigo, porque a resposta tem a ver com uma coisa que você faz de quatro em quatro anos, achando que sabe o que está fazendo. E não sabe.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Você acabou de ouvir que tem um jogo sendo jogado com o seu dinheiro — por gente que você não elegeu — e que ele foi feito pra você não conseguir ver. Pois é. É exatamente contra essa invisibilidade que o Meio trabalha. Tem uma eleição em outubro, e dá pra chegar nela enxergando. Todo mês a gente faz a pesquisa Meio/Ideia — foi ela que flagrou, antes de qualquer outra, a base bolsonarista se dissolvendo pela periferia e pelas mulheres. E não é só o número que sai no jornal: o assinante entra numa plataforma e corta a pesquisa como quiser — idade, renda, religião, região. Toda semana tem o Meio Político destrinchando a corrida por dentro. É a diferença entre comentar 2026 no escuro e ver a engrenagem antes de todo mundo. Olha, a gente não faz jornalismo de torcida. Nosso trabalho aqui é mostrar, pra você, como o Brasil funciona. Não vamos apontar para onde deve ir seu voto. Vamos dar a informação que ajuda você a fazer a sua escolha. Não é ler mais notícia — é não ser pego de surpresa. Assina o Meio Premium.

Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

Então, a pergunta. Por que a gente cobra do presidente e não cobra desse pessoal? A resposta é meio dura. É porque você não escolhe essa gente de verdade. Você acha que escolhe. Não escolhe.

Deixa eu explicar, sem aula. Quando você vota pra presidente, é simples: o mais votado ganha, o outro perde. Agora, quando você vota pra deputado, não é assim que funciona. Você digita o número de um candidato, uma pessoa, com nome e rosto. Mas o seu voto não vai pra ele. Vai pro partido. Ele vai pra uma pilha de votos que aquele partido recebeu. E é o tamanho dessa pilha que decide quantas cadeiras aquele partido leva. Só depois é que se olha quem, dentro do partido, foi mais votado. Quer dizer: o seu voto pode eleger um sujeito que não é aquele em que você votou. Um sujeito que você nunca ouviu falar. E, se você gosta duma candidata mas de ninguém mais do partido dela, perdoe. Você votou em gente de quem não gosta.

Isso tem nome, e tem história. Você lembra do Enéas? Pois é. Em 2002, o Enéas se candidatou a deputado federal por São Paulo e teve uma votação estrondosa — mais de um milhão e meio de votos. Uma coisa fora de série. Só que, pela regra, aquele um milhão e meio foi pra pilha do partido dele. E puxou junto — de arrasto — mais uns cinco deputados do mesmo partido. Cinco caras com uns poucos milhares de votos cada, que entraram na garupa do Enéas. Teve gente com um monte de votos noutras legendas que não entrou, mas uma turma com meia dúzia e uns quebrados de votos ganhou cadeira. Vem cá: quem votou naqueles cinco? Ninguém. Ninguém sabia que estava votando neles. É assim que funciona. Todo ano tem um Enéas.

E olha o tamanho da escolha que estão te pedindo pra fazer. Num estado grande, são milhares de candidatos a deputado. Milhares. Você conhece a vida de quantos? De três, de quatro? Então. Ninguém consegue fazer essa escolha. Ninguém consegue conhecer todos os candidatos com chances de ser eleito em cada partido. Seu voto é uma escolha impossível. Você é iludido em achar que está optando por uma pessoa, mas o presidente do partido já escolheu quem vai entrar. Você chega na urna, digita um nome que meio reconhece, e o resto a máquina faz por você. A sensação de que você escolheu é real. A escolha, não. Daqui a quatro anos, nós da imprensa vamos lá dizer: o brasileiro nem lembrar em quem ele votou pra deputado. É. Não lembra. As regras do jogo são criadas para você ter a ilusão de que escolhe e nunca lembrar o que escolheu. A escolha não foi sua.

E é aqui que a história fecha. Porque, se o deputado não deve a cadeira a você — se ele deve ao partido, à legenda, ao cacique que montou a lista e segurou o dinheiro —, então adivinha a quem ele obedece. Não é a você. É ao Valdemar. Quando o cacique diz “carimba essa emenda”, o deputado carimba. Ele não tem medo de você, porque você não o elegeu de verdade, e não vai conseguir tirá-lo. Ele tem medo do cacique. Por isso o poder está lá, e não com você. O sistema que te faz sentir que escolhe é o mesmo que entrega o deputado de bandeja pro Valdemar.

E aí, o que a gente faz com isso? Olha, eu não vim aqui te vender uma solução mágica, mudar o sistema é uma conversa bem longa. Vim te pedir uma coisa mais simples, e mais difícil. Repara pra onde o poder foi. A gente aprendeu a vigiar o presidente. Grita com o presidente, cobra do presidente, xinga o presidente. Enquanto isso, um pedaço enorme do poder — e do seu dinheiro — mudou de endereço, foi pro Congresso, e a gente não mudou o olhar junto. Continua olhando pro Planalto enquanto a conta é decidida na Câmara, por gente que você não elegeu e não consegue cobrar. Veja bem, esta não é uma defesa do Lula. Se o Flávio Bolsonaro for eleito, este jogo seguirá nas mãos do Valdemar, do Cunha, do Ciro Nogueira, do Arthur Lira. Se for Caiado, se for Zema, se for Renan, eles podem bater duro na mesa, dar dois berros, dizer que será diferente. Não vai. O poder cruzou a Praça dos Três Poderes. Mudar não depende só da vontade do presidente. A fatura disso é aquele dinheiro invisível do começo. É a sua obra que não sai. E o primeiro passo pra mudar isso não é reformar nada. É parar de olhar pro lugar errado.

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