A ala do bolsonarismo que odeia Michelle e o voto feminino
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Paulo Figueiredo é um personagem e tanto na novela do clã Bolsonaro, né? Se não fosse trágico o que ele representa, poderia ser do núcleo cômico do novelão.
Bom, numa live no YouTube, o neto do último presidente da ditadura militar, que vive nos Estados Unidos, e transita entre seu comparsa, Eduardo Bolsonaro, e as alas mais radicais do trumpismo, decidiu dar sua grande contribuição ao debate político brasileiro da semana.
“Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não.”
O gatilho para os disparates do influencer foi aquele vídeo publicado dias antes por Michelle Bolsonaro, presidente do PL Mulher, ex-primeira-dama, e essa sim arquiteta, nos últimos três anos, da maior operação de arregimentação feminina que a direita brasileira já viu.
Caso você esteja tão mergulhado na Copa que não tenha visto, no vídeo, Michelle dizia ter sido “humilhada”, “desrespeitada” e “maltratada” pelo enteado Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à presidência. E, depois, usava a palavra no plural, “enteados”, para incluir também Carlos e Eduardo, esse que também mora nos Estados Unidos. De lá, ele comanda o “núcleo americano” citado por Michelle como responsável pelos ataques virtuais que ela recebia.
Michelle se sentiu confortável para soltar a bomba na pré-campanha de Flávio porque está ciente do imenso capital político e eleitoral que construiu no PL Mulher e do quanto o resto do bolsonarismo carece dele: o voto feminino é um ativo em disputa, um dos poucos, nesta eleição. Jair não o detinha. Flávio não o conquista. Eduardo o despreza.
A resposta de Figueiredo foi de uma clareza, nesse sentido, que chega a comover. Mais do que criticar Michelle, ele estava ensaiando um discurso contra o fato de mulheres terem voto.
Soa radical demais? É porque é mesmo.
O argumento de Figueiredo é apenas a versão brasileira, mais grosseira e sem filtro, de uma discussão que avança com velocidade surpreendente nos Estados Unidos — e que tem inclusive uma dimensão teológica.
Por ora, esse argumento está restrito às alas mais radicalizadas, é verdade. Mas a gente sabe como é que essas coisas funcionam na tal da janela de Overton. Um pequeno grupo lança uma ideia que soa estapafúrdia, sendo correta ou não. Muitos torcem o nariz, rechaçam. Em seguida, alguns poucos levantam a dúvida: “será que isso é tão absurdo assim?“.
Dali a pouco, esse grupo elege dois ou três deputados. Em nome de se fazer as concessões que a democracia exige, chega-se a uma versão menos rejeitada do absurdo. E a ideia estapafúrdia passa a ser cada vez mais aceita.
Nos Estados Unidos, está crescendo em podcasts masculinistas de variados tipos, sejam dos que falam de games ou artes marciais, sejam os que tratam diretamente de política, sejam os red pills ou os religiosos, a noção de que mulheres são mais progressistas. As jovens, especialmente. Há estatísticas que confirmam essa hipótese.
Os mais extremistas pregam que os homens precisam “salvá-las” e a maneira ideal é se casando com elas o mais cedo possível. Uma outra ideia, decorrente ou não dessa primeira, é a de que cada família tenha um único voto. O do homem, naturalmente.
Essa ideia está longe de ser predominante ou exclusiva de ambientes religiosos, mas ressoa em alguns deles.
Um dos líderes religiosos de maior influência com discursos nesse sentido é o pastor Doug Wilson, líder da Comunhão de Igrejas Evangélicas Reformadas e figura central do nacionalismo cristão americano. Ele tem pregado há anos que o voto feminino é incompatível com uma nação cristã.
A posição ganhou relevância institucional quando o secretário de Defesa de Trump, Pete Hegseth, repostou, em 2025, uma notícia sobre Wilson e foi identificado como apoiador da sua denominação religiosa. Ou seja, não é algo que está totalmente à margem do debate político. Está dentro da Casa Branca.
Junto com Wilson, circula nesse ambiente o líder religioso Dale Partridge, também apoiador de Trump, mas também o influenciador Nick Fuentes, que tem uma pegada mais red pill, antifeminista. São alas diferentes do radicalismo, que convergem para o mesmo ponto: a noção de que o voto feminino corrompeu a política porque tirou o voto da unidade natural — que é a família ou o homem — e o distribuiu por indivíduos que não têm a maturidade ou o discernimento para exercê-lo sozinhos. As mulheres solteiras são o alvo predileto porque são a encarnação mais pura do problema: sem marido para calibrar o voto, votam com o próprio juízo.
Pra entender como esse movimento chega ao Brasil pela via religiosa, eu consultei minha querida amiga e colunista do Meio, a Deborah Bizarria. Ela me explicou que esse pensamento chega com verniz teológico sobretudo por meio da teonomia, corrente que defende que princípios e leis do Antigo Testamento devem orientar também a organização política e social contemporânea, e do reconstrucionismo cristão, que transforma essa leitura em um projeto mais amplo de reorganização da sociedade segundo normas bíblicas.
Essas ideias circulam em nichos evangélicos reformados por meio de traduções, editoras, canais, cursos e influenciadores que apresentam a autoridade do homem sobre a família como parte de uma ordem criada por Deus, não como simples preferência cultural.
A Teologia da Aliança, tradição mais ampla do mundo reformado que lê a Bíblia a partir dos pactos entre Deus e seu povo, pode aparecer nesse repertório, mas não leva necessariamente a essa conclusão: muitos reformados aderem a ela sem defender voto familiar, teonomia ou aplicação direta da lei mosaica à política moderna.
A sobreposição acontece quando setores teonomistas usam essa linguagem paternal para transformar a família, chefiada pelo homem, em modelo de organização social e política obrigatória. Por aqui, o que já se vê é uma circulação maior e mais organizada, com materiais em português, redes de divulgação e debate dentro do próprio campo conservador, inclusive com resistência de evangélicos reformados que rejeitam essa tradução política da liderança familiar.
Figueiredo não precisou citar nenhum desses nomes, nem correntes. Ele simplesmente tentou exportar lá dos Estados Unidos uma noção reacionária ao extremo, que ainda está bem restrita, mas vem crescendo. E por duas razões.
Primeiro, porque mobilizar esse ressentimento contra as mulheres favorece o tipo de bolsonarismo que Eduardo, seu chefe, lidera: o digital. Aqui, é total Nick Fuentes. Segundo, porque atinge Michelle Bolsonaro em seu território: na intersecção entre religião, política e família. Aqui, é mais Doug Wilson.
Pra entender melhor essa guerra travada no bolsonarismo, a gente precisa entender primeiro o que Michelle construiu de fato e os paradoxos dentro do movimento dela. E, por isso, eu quero que você fique mais um pouquinho aqui comigo e quero te fazer um convite. Na Edição de Sábado, exclusiva para assinantes premium do Meio, a repórter Giullia Chechia mergulhou a fundo no projeto Michelle dentro do PL. Ela explica tim tim por tim tim o que foi esse movimento. Se você gosta do nosso jornalismo, se quer ficar bem informado pra entender a fundo as disputas que parecem meramente uma briguinha de família, assine o Meio. São só 15 reais por mês.
O movimento político de Michelle Bolsonaro apresenta uma aparente contradição interna ao próprio campo.
Desde 2022, Michelle Bolsonaro desenvolveu um papel duplo que nenhuma outra figura do bolsonarismo exerceu com a mesma eficácia. No palanque, era a “ajudadora do esposo”, a mulher que orava pelo marido, justificava seus excessos, pedia votos em nome da fé e da família.
Num evento do PL Mulher em Londrina, em novembro de 2025, ela foi didática: “Sou auxiliadora, ajudadora. E a Bíblia fala da submissão da esposa ao marido, mas é a submissão saudável.” Essa é uma linguagem religiosa da complementaridade — o homem como cabeça, a mulher como apoio indispensável — e Michelle a usa com fluência.
Mas essa submissão saudável a que Michelle se refere é diferente da vislumbrada por Paulo Figueiredo. Ela filiou mulheres, elegeu mandatárias, percorreu o país, criou uma base própria de seguidoras e líderes multiplicadoras de sua mensagem. Elas podem ser “auxiliadoras” no discurso, mas têm atuação prática e querem voz na política.
Não entendam mal. Estão longe de ser feministas, de ter uma agenda progressista para mulheres. Ao contrário, se dirigem às mulheres de bem como aquelas conservadoras cristãs, têm agendas de retrocesso em direitos reprodutivos conquistados, etc. A questão é só que querem elas mesmas exercer sua visão de mundo, por mais machista que essa visão de mundo possa parecer a olhos progressistas.
No vídeo, Michelle fez algo que a gramática política tem dificuldade em compreender: agiu com autonomia enquanto invocava o tempo todo a autoridade do marido como cobertura. Disse que consultou Jair. Que só agiu a mando dele. E ao mesmo tempo confrontou os enteados publicamente, reivindicou o capital que construiu. O conteúdo do vídeo era o de uma mulher exercendo poder. A embalagem era a de uma esposa obediente.
Acontece que o bolsonarismo criou Michelle Bolsonaro. Precisou dela para conquistar as mulheres que sistematicamente recusavam Jair. E agora não sabe o que fazer com ela.
E Figueiredo, ao dizer que mulher vota mal, está dizendo que o problema é que mulheres não são leais ao bolsonarismo e, por isso, nem deviam votar. Isso não vai colar no Brasil, onde mulheres, a maioria religiosas, chefiam a maioria dos lares. Mas ele também está dizendo que a solução que o bolsonarismo criou, que é Michelle, é pior do que o problema. E depois me questionam quando digo que Eduardo e o Eduardismo estão abertamente sabotando a campanha de Flávio.


