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A tropa da Michelle

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Tem um movimento político evangélico nascendo no Brasil, e ele está trocando o barulho pela organização. Sai a estridência do Silas Malafaia e entra uma coisa nova, muito mais séria: militância política organizada, de verdade. Ontem, Michelle Bolsonaro renunciou à presidência do PL Mulher; hoje, Valdemar Costa Neto dissolveu o cargo. Diz que sem a Michelle, não faz sentido. Não é demagogia, sem ela, não faz, mesmo. E a maior parte das pessoas vai ler isso como mais um capítulo da briga da família Bolsonaro. Não é. É o sintoma de uma coisa muito maior, sendo construída na frente de todo mundo sem que quase ninguém perceba. Michelle, Damares e Nikolas Ferreira são a vanguarda de uma coisa nova na política.

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O PL gastou mais dinheiro pra organizar mulheres politicamente do que todos os outros partidos somados. Do que o PT. Do que o PSOL, que deve ser o partido com mais feministas declaradas do país. No sábado, no Meio, a Giullia Chechia foi ver como — e achou uma máquina. É a lógica dos encontros das comunidades evangélicas misturada com aqueles encontros antigos de venda de Tupperware. Uma mulher chama as outras pra sua casa, serve bolo de fubá, um cafezinho. Elas conversam, têm as cartilhas políticas, cada tema com seu enfoque. E, por cima, gamificação — sabe aquilo de app de celular, você vai avançando de fase e ganha uns selos, uns badges? No PL Mulher, são pins. Quanto mais presente nas reuniões, mais pins você ganha. Uma hora, começa a organizar os seus próprios encontros. Com pins suficientes, entra na área VIP do PL Mulher do seu estado, e pode estar lado a lado com a própria Michelle.

Deixa eu te fazer uma pergunta. Essas mulheres todas, organizadas politicamente — você acredita que a Michelle, ao abrir mão do título de presidente do PL Mulher, deixou de ser líder do PL Mulher? Não é um cargo que faz um líder político. É a capacidade de inspirar um conjunto grande o suficiente de pessoas. Pras mulheres que ela inspirou, Michelle continua com o mesmo tamanho.

Porque, olha, como é que esses partidos lidavam com a legislação que obriga cota de mulheres candidatas? Pegavam laranja pra cobrir pro-forma. Mil trambiques pra fingir que o dinheiro vai pras mulheres quando, na verdade, vai pra mesma turma de sempre. O que o PL está fazendo é outra coisa muito diferente. O PL está formando uma base feminina de militância real. Como está criando um movimento jovem com o Nikolas Ferreira, do outro lado, é a mesma coisa. É, eu sei. Caminhou de Minas a Brasília, teve raio, um monte de memes fazendo troça pelo flanco esquerdo. Do lado dele as pessoas estavam comovidas.

E este é outro ponto importante aqui. Militância. Até poucos anos atrás, um ano, dois anos, a gente olhava prum PT, prum PSOL, e falava: aqueles são partidos políticos de verdade. O que os fazia partidos de verdade? Militância. Gente que vende estrelinha do PT na campanha, reunião acalorada em cidade micra do interior. Essa sempre foi a força do PT. O PSOL não tem essa capilaridade, mas nas grandes capitais tem militância bem relevante. O que faz um partido de verdade não é ter prefeito, deputado. É ter gente que não é nada disso e, ainda assim, milita de forma organizada.

O bolsonarismo criou uma militância espontânea. Mas nunca teve uma militância organizada. Sim, era aquele caos de grupo de WhatsApp, convocação pra passeata por rede social, na esperança de ir cascateando e se espalhando. Funciona, claro, mas é pura emoção. Não é organização. Bolsonaro, o Jair, era só caos. Na presidência da República, com todo dinheiro que quisesse, nunca conseguiu montar um partido. Quem conseguiu construir uma militância organizada pela direita foi o MBL. Não é à toa que os caras conseguiram montar um partido. Mas, por enquanto, é uma militância concentrada demais em São Paulo, um pouco mais no Sudeste, e muito baseada num público de live. Ainda assim, fazem encontro anual, vendem curso, têm uma pegada de carteirinha, sabe? Eu sou do MBL.

A Michelle fez isso. “Eu sou do movimento de mulheres do PL.” Do movimento das mulheres da Michelle. Pessoas têm orgulho disso. O núcleo, segundo o partido, são 431 grupos, passa um pouco de cinco mil e duzentas mulheres. Parece pouco? Não é. Cada uma dessas mulheres é uma líder em potencial. É uma pessoa que se reúne com regularidade com outras mulheres pra conversar sobre a vida, pra rir e chorar junto, pra explorar essa coisa que é a dificuldade de estarmos vivos juntos. E falam sobre política. Falam sobre política com uma cartilha. E sua líder é Michelle Bolsonaro. Estas mulheres tocam em quantas outras por dia? Pois cada uma delas fala com paixão.

Veja, o que a Michelle está fazendo tem raiz. Damares Alves já fazia algo parecido, no Republicanos, sem o tamanho, o escopo, de Michelle. E é sem ciúmes: Damares está fechada com Michelle. Olha, eu sei. Muitos de vocês, neste momento, estão pensando na Margaret Atwood, no Conto de Aia. Não tenham dúvida de que elas representam uma visão muito, muito conservadora sobre o que é ser mulher, ser homem, sobre sexualidade, sobre a vida. Mas não achem que é aquela pegada de o homem fala e a mulher abaixa a cabeça. A relação é diferente.

Estas mulheres, neste movimento, podem não ter ensino superior, certamente não leram Simone de Beauvoir, sua conversa sobre política passa por versículos bíblicos, não por filosofia. Não tem discussão sobre a que onda do feminismo você pertence, e falar em feminismo é ofender. Mas estas são mulheres fortes, com vidas difíceis, e sem muitas ilusões a respeito de homens. Elas preferem, sim, ter marido. Mas homens são violentos, homens vão embora. Homens são vistos, com frequência, como gente a mais de quem elas precisam cuidar. Como crianças grandes. E isso dá trabalho. Eu entendo qualquer mulher de classe média alta, que estudou sociologia, dizendo não, muito obrigada, tenho minha vida, não estou aqui pra cuidar de marmanjo. Tudo certo. O ponto não é esse. O ponto é que estas são mulheres responsáveis, que cuidam de muita gente, se sacrificam por muita gente. Não são passivas. Podem falar em submissão, mas o que a palavra quer dizer pra elas não é o mesmo que chega aos ouvidos fora da periferia. Estas mulheres são líderes. Quem costuma tomar as decisões difíceis, em suas casas, são elas.

Isto não é pra dizer que o mundo dos sonhos do conservadorismo evangélico seja o ideal pra quem não vive nele. Porque não é. O ponto aqui é outro. Isto não é uma repetição do bolsonarismo, não é golpe militar — é outra coisa. É este movimento político evangélico se organizando no Brasil, e ele pode se tornar muito rápido uma das bancadas mais organizadas do Congresso Nacional. Que ninguém se engane: Flávio Bolsonaro não está no comando aqui. Ele perdeu a batalha. Não é para dizer que os capangas do Eduardo Bolsonaro, os Paulos Figueiredos da vida, não tenham razão de atacar a Michelle. Eles têm. Ela está criando uma base de poder que eles não têm.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Eu estou falando sério, tá? Leiam a reportagem da Giullia Chechia, que saiu sábado passado, no Meio. CanalMeio.com.br. A assinatura é só 15 reais. Ela subiu ao nono andar da sede do PL, em Brasília, e mapeou o Projeto Alicerça Brasil por dentro: quanto custou — dezesseis milhões de reais, o dobro do que o PT põe na ala feminina dele —, de onde vem esse dinheiro, como os 431 grupos se conectam, e quem são as mulheres que estão sendo formadas pra liderar. Tudo o que eu te contei aqui é a moldura. A reportagem é a planta baixa. E é a leitura que separa quem vai comentar a eleição de 2026 no escuro de quem viu essa engrenagem antes de todo mundo. Está na Edição de Sábado dessa semana. Assine o Meio Premium.

Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

Flávio Bolsonaro está lascado. Ele não entendeu que precisava prestar mais atenção na madrasta, não consegue controlar o irmão que late como cão raivoso, e não tem voto do qual ele precise mais do que, justamente, o voto feminino conservador. O voto que está prestando atenção em Michelle como poucos. Vocês viram as imagens do encontro, hoje, do Flávio com as mulheres conservadoras? Viram, né? Viram como a câmera está sempre fechada no Flávio? Pois é. Imagina só quantas mulheres conservadoras estavam lá.

Os filhos de Jair Bolsonaro estão entregando a eleição nas mãos de Lula. Para a Michelle, para o Nikolas, para a Damares, na boa? Tanto melhor. Eles estão mirando outro momento do Brasil, o momento pós-Lula, pós-Jair. O que está construindo é para depois. Vocês estão preparados para o momento em que a direita eleger mais mulheres do que a esquerda para a Câmara? Para o número de deputados em Minas e fora que serão eleitos com Nikolas fazendo campanha?

A esquerda não tem puxadores de voto como os da direita. Sabe por que não tem? Porque olha para a periferia urbana, que é onde está a massa de brasileiros, com desprezo e preconceito. A esquerda perdeu a base popular urbana do Sudeste. O Centro, bem, o Centro nunca a teve.

E, enquanto a gente assiste à briga dos Bolsonaro como quem assiste novela, tem gente ocupando esse espaço vazio — não com gritaria, com organização. Reunião, cartilha, cafezinho, uma líder que inspira. Michelle, Damares, Nikolas não estão disputando 2026. Estão construindo quem vai mandar depois. E a hora de olhar pra isso é agora, enquanto ainda parece só fofoca de família. Porque quando deixar de parecer, já vai estar pronto. Está na frente de todo mundo. É só parar de assistir à novela e ver por que a briga está acontecendo.

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