A última camisa do Neymar
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Eu falei. Não faz nem duas semanas, aqui mesmo, num dia de jogo, eu abri um episódio dizendo que esse ano — diferente de 2022, de 2018, diferente de 2014 — eu estava achando que dava pra Seleção. Pois é. Não deu.
Domingo, o Brasil perdeu pra Noruega por 2 a 1. Dois gols do Haaland, os dois na reta final. E a gente caiu nas oitavas de final. A primeira vez que o Brasil cai tão cedo assim desde 1990. Mil novecentos e noventa. Trinta e seis anos. Tem gente que chorou no domingo que nem tinha nascido na última vez em que isso aconteceu. Gente que sequer lembra da humilhação dos sete a um.
E teve uma imagem, no fim do jogo, que eu não consigo tirar da cabeça. O Neymar entrou no segundo tempo, o jogo ainda estava no zero a zero. Para que ele entrasse, Ancelotti teve de desmontar o esquema defensivo e o cara meteu dois gols em sequência. Aí, bem, pênalti pro Brasil. Faltam dois minutos pro fim. O que qualquer jogador minimamente responsável faz? Não perde tempo. Objetividade. Põe a bola, marca, corre pra pegar a bola no fundo da rede, põe no centro do campo, porque é um minuto mais, quarenta segundos que seja. É o tempo dum ataque. O último fio de chance. Não Neymar. Escolheu fazer show com o goleiro norueguês. Fez um gol de pênalti nos acréscimos — um gol que não salvava nada, um gol pra estatística. A última Copa do maior jogador dessa geração terminou assim: entrando tarde, marcando um gol que não valeu, saindo de campo enquanto o país inteiro já sabia que tinha acabado. Guarda essa imagem. Ela volta no fim.
Porque, veja, não é da derrota que eu quero falar hoje. Derrota a gente conhece, a gente sabe de cor. O que me pegou foi outra coisa. Foi reparar em quanta gente vestiu a camisa amarela esse ano. E olha, eu não estou falando de quem sempre vestiu.
Porque você lembra no que a camisa tinha se transformado, né? Lembra. Ela tinha dono. Depois de 2018, depois dos atos, depois do 8 de janeiro — quando quase todo mundo que invadiu Brasília estava com a canarinho, a ponto de a própria CBF ter de soltar uma nota se descolando daquilo — a camisa da Seleção tinha virado o uniforme de um lado só. E aí um monte de brasileiro parou de vestir. Guardou no fundo do armário. Teve gente com vergonha de torcer pelo Brasil de camisa amarela, com medo de ser confundido com uma coisa que não era. Não é só petista, não. Um monte de gente teve de apelar para camisa preta da Seleção, camisa Azul. A camisa de todo mundo tinha virado a fantasia de só alguns.
E aí, esse ano, no meio de uma Copa que a gente perdeu cedo, com o brasileiro mais descrente da Seleção do que em qualquer Copa deste século — teve gente dos dois lados botando a amarelinha de volta no corpo. Isso não é impressão minha. Eu vou te mostrar os números, e são de dois dos institutos mais sérios do país, e eles contam uma história que não fecha à primeira vista. Uma história em que o mesmo brasileiro, ao mesmo tempo, não acredita no time e volta a ter orgulho da camisa. As duas coisas juntas, na mesma pessoa. E é exatamente aí, nessa contradição, que mora o que eu acho que é a notícia de verdade.
Porque se o orgulho voltou logo agora — justamente quando parou de ser sobre ganhar, e parou de ser sobre lado — então talvez essa camisa esteja fazendo, sozinha, uma coisa que a nossa política não está nem perto de conseguir fazer. Talvez, cansados de tanto brigar, a gente tenha começado a procurar alguma coisa que ainda seja de todos nós. Nem que seja, por enquanto, só um pedaço de pano amarelo.
Repara comigo ao longo desse episódio: pode ser que a semente de um “nós” esteja brotando no lugar mais improvável que existe — no meio de uma derrota.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Você sabe que, como jornalista, eu tenho uma sede imensa por pesquisas, né? A maioria dos analistas políticos leem política pelo lado dos políticos, mas prestam pouca atenção na outra ponta. A sociedade, o povo. É fácil entrevistar políticos. O povo não dá, né? Então as pesquisas são a lente possível. Mas, olha, a parte que a gente publica tem valor, mas o que dá maior valor para uma pesquisa não tem como publicar. São os cortes demográficos.
Para cada pergunta que nós fazemos, na pesquisa Meio/Ideia, tem um corte. Quem respondeu tal coisa se divide como por idade, por renda, por gênero, por geografia. Para algumas perguntas nós e os outros institutos fazemos essa divisão. Para todas? Não dá. Seria uma quantidade imensa de espaço. Bem, agora, para todas as edições da Pesquisa Meio/Ideia, você pode ver todos os números no detalhe. A gente montou um site só para isso. Desde janeiro, todos os meses.
Você já pode ver agora. E, quarta-feira, quando sai a nova edição da Meio/Ideia, também a pesquisa de julho já estará lá. Você é assinante do Meio? Seja. Porque, com este site, você terá acesso a um nível de informação que, hoje, só bancos e partidos políticos têm.
E este aqui? Este é o Ponto de Partida.
Então deixa eu te mostrar os dois números. Presta atenção neles. São dois números de institutos de pesquisa diferentes que parecem dizer duas coisas muito distintas. E, ao mesmo tempo, são simultaneamente verdadeiros. É uma tensão. É o Brasil de hoje.
O primeiro número é o do desânimo. Antes dessa Copa começar, o Datafolha fez a pergunta de sempre: você acha que o Brasil vai ser campeão? Deu 33%. Trinta e três por cento. É o menor número da história dessa pergunta. Pra você ter ideia: em 2010 eram 64%. Em 2014, 68%. Mesmo depois de tudo, em 2018 e em 2022, ainda era perto de metade. Esse ano, um terço. O brasileiro entrou nessa Copa sem fé nenhuma. E, bem, o brasileiro estava certo. Eu não acho que jogamos mal. Mas não adianta o que eu acho. Desclassificados nas oitavas.
Agora o segundo número. E é aqui que a coisa fica estranha. No mesmo período, o Instituto Locomotiva, do Renato Meirelles, que é um dos caras mais sérios que a gente tem nisso, mediu outra coisa: o orgulho de vestir a camisa. Deu 62% dos brasileiros com orgulho da camisa amarela. Mas não é o 62 que me interessa. É o que aparece quando você abre esse número por lado político. Na esquerda, 65%. Na direita, 68%. Praticamente igual. Os dois lados, que não concordam sobre absolutamente nada nesse país, concordam nisso. E quase nove em cada dez brasileiros disseram que iam vestir a camisa durante jogos.
Para e pensa comigo. É a mesma pessoa. O mesmo brasileiro que não acredita na Seleção é o que voltou a ter orgulho da camisa. As duas coisas, ao mesmo tempo, dentro da mesma cabeça. Como é que pode?
Pode porque o orgulho descolou da vitória. Repara: se o orgulho da camisa fosse sobre ganhar, ele tinha caído junto com a esperança — os dois lá no chão. Não caiu. A esperança no fundo do poço, e o orgulho voltando. Quer dizer: pela primeira vez em muito tempo, vestir amarelo deixou de ser sobre o troféu.
Aliás, deixa eu dar um passo para trás. É mais importante que orgulho. Nessa deprê de não acreditar em título, em hexa, tem uma vontade de estar junto. Uma vontade de união. Vontade, no fim das contas, de nos redescobrirmos juntos em torno de ao menos um único símbolo. A camisa da Seleção é o lugar em que todos nós nos encontramos.
Porque, no fim das contas, aqueles 65 e 68, esquerda e direita quase idênticos, estão dizendo que a camisa deixou de ser sobre lado. Lembra de onde ela vinha? Das passeatas que encheram a Paulista de amarelo, do 8 de janeiro, do uniforme de um lado só. Do uniforme de um time só. Pois é exatamente dessa camisa que a gente está falando. A mesma. Em pouquíssimos anos, ela saiu de bandeira de facção e virou uma coisa que a esquerda e a direita voltam a querer vestir juntas.
Então subtrai as duas. Tira a vitória — porque a gente perdeu. Tira o lado — porque os dois lados convergiram. O que sobra, quando não é sobre ganhar e não é sobre de que lado você está? Sobra pertencer. Sobra a vontade de ser um país junto. Sobra o “nós”.
Agora volta comigo praquela imagem. O Neymar, na última Copa da vida dele, entrando tarde, fazendo paradinha num pênalti que não valia nada e correndo pra provocar o goleiro — “comigo não, otário” — ignorando que ainda tinha um fiapo de chance. Repara na cena inteira. O país no chão, e o cara fazendo firula pra si mesmo. É o retrato do eu se exibindo em cima das ruínas do nós.
E não é por acaso que seja justo ele. Neymar é o jogador que escolheu um lado, o primeiro craque brasileiro que escolheu, ativamente, ser craque de só metade do Brasil. Ele virou o marcador simbólico de uma camisa que tinha lado. A saída dele de cena, com essa imagem, é a página virando: a geração que politizou o amarelo saindo de campo bem na hora em que o amarelo tenta voltar a ser de todos.
Olha, eu não estou dizendo que o Brasil se despolarizou. Longe disso — o país segue rachado no que interessa. O que eu estou dizendo é uma coisa mais modesta: um símbolo que era de todo mundo, e que a briga tinha sequestrado, começou a voltar a ser de todo mundo. É pouco? É. É uma semente. Mas semente, mesmo que o chão esteja seco, já é quase esperança. E é por causa de número assim que eu não largo do pé das pesquisas.


