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A decisão de Moraes e a resposta desesperada de Flávio Bolsonaro

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Você entendeu o que tá acontecendo no rolo da cartinha do Jair?

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Vamos lá. Nesta segunda-feira, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, decidiu suspender, por 90 dias, as visitas do senador Flávio Bolsonaro ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar humanitária.

Na prática, os dois não vão poder se ver até meados de outubro — em cima do primeiro turno das eleições. Moraes também deu 48 horas para a defesa de Jair esclarecer se ele sabia que a carta escrita por ele seria divulgada nas redes sociais do filho, e mandou cópia de tudo para o Ministério Público Eleitoral, porque, segundo o ministro, o episódio pode configurar propaganda eleitoral antecipada.

É claro que Jair sabia, né? Basta voltarmos ao sábado. Flávio visitou o pai pela manhã — ele tem autorização para isso às quartas e aos sábados, por duas horas, por ser filho; e a meia hora diária por constar como advogado de Jair nos autos.

O Zero Um saiu de lá, da casa da Michelle Bolsonaro, com uma carta escrita à mão por Jair, com a data de sábado, 11 de julho. Horas depois, numa live, o senador leu o texto ao vivo e publicou nas redes. Na carta, Jair chama o filho de seu porta-voz, diz que ele é a melhor opção para o Brasil, e pede que os apoiadores deixem de lado as diferenças e se unam em torno da pré-candidatura dele.

Nem uma linha ou palavra sobre a esposa, Michelle. Nadica. Ou seja, foi uma mensagem clara de Jair, o prisioneiro, para sua base de que, na briga entre mulher e filho, o líder está fechado com o primogênito, certo?

Tem duas análises que a gente precisa fazer a partir desse imbróglio todo. Uma sobre a decisão do Xandão em si e os argumentos usados por lulistas e bolsonaristas em torno dela. A outra sobre os efeitos que a decisão e o racha sem fim entre Michelle e Flávio já estão tendo na corrida presidencial.

Começando pela decisão do Alexandre de Moraes. Desde março, quando Jair passou para a prisão domiciliar humanitária, ele está proibido de usar celular e acessar redes sociais — inclusive por meio de terceiros — e essa restrição foi mantida, e até reforçada, quando a domiciliar foi prorrogada por tempo indeterminado no início deste mês.

Por que Jair está proibido de se comunicar com o mundo externo? Porque Alexandre de Moraes, que é o responsável pela execução de sua pena, decidiu em medida cautelar que, para conceder o benefício da prisão domiciliar, esse privilégio, precisava restringir as chances de Jair seguir cometendo crimes contra a democracia, atando a Justiça eleitoral e o STF.

É exagerada a medida cautelar? Eu acho que não, mas cabe discussão no meio jurídico. Agora, o que não cabe, com certeza, é desobediência à cautelar. Se ela existe, e é expressa e objetiva, tem de ser cumprida. O descumprimento pode resultar em revogação da domiciliar ou na perda de outros benefícios. Moraes escolheu revogar as visitas de Flávio.

Para Moraes, ao usar a visita para obter a carta e divulgá-la, Flávio praticou um desvio de finalidade: usou um direito — o de visitar o pai — para viabilizar algo que o pai está proibido de fazer diretamente. E o ministro lembrou que não é a primeira vez: um episódio parecido, em agosto do ano passado, já tinha motivado a própria decretação da domiciliar.

A reação de aliados foi imediata, e previsível: o senador Rogério Marinho, coordenador da pré-campanha de Flávio, chamou a decisão de autoritária e desproporcional, disse que ela tenta tornar Bolsonaro incomunicável e falou em tratamento desigual.

E o nome que veio à boca de todo mundo, claro, foi o de Lula. O senador Sergio Moro publicou que, durante 2018, Lula recebeu mais de quinhentas visitas na Polícia Federal em Curitiba, incluindo dezenas do então candidato Fernando Haddad, que saía de lá e dava entrevista contando o que Lula tinha dito — e que ele, Moro, nunca cogitou restringir visita ou correspondência de Lula.

Só que essa comparação, para ser justa, precisa no mínimo de três ressalvas. A primeira: a ordem que mandou Lula para a prisão, em 2018, fixava as condições da custódia, mas não continha nenhuma proibição específica de uso de redes sociais por terceiros, nem de divulgação de cartas. Jair está proibido, expressamente, desde março.

A segunda ressalva é de calendário. A carta mais lembrada de Lula, aquela em que ele desiste da candidatura e passa o bastão para Haddad, é de 11 de setembro de 2018 — lida publicamente pelo advogado Luiz Eduardo Greenhalgh diante da sede da Polícia Federal. Naquele momento, o período eleitoral já estava em curso; a campanha oficial de 2018 já rodava havia semanas.

Agora estamos em julho de 2026, antes do início formal da campanha — e é exatamente por isso que Moraes não trata o caso só como possível quebra de cautelar, mas também aciona a Justiça Eleitoral, por suspeita de propaganda antecipada.

A terceira ressalva é sobre a natureza da prisão. Lula estava preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do tríplex do Guarujá — sem nenhuma cautelar de silêncio associada a isso. Jair está em prisão domiciliar por participação numa trama golpista: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado.

A proibição de acessar redes sociais, mesmo por intermediário, nasce justamente desse histórico, da natureza do crime — de um processo em que o uso de redes para mobilizar contra o resultado eleitoral e contra as instituições foi parte central da acusação.

Para entender melhor tudo isso, eu bati um papo com o professor de Direito Eleitoral e Constitucional Ruy Espíndola.

Sobre a carta, ele é direto: se Jair está proibido de acessar redes e usar celular, essa proibição não faz sentido nenhum se puder ser contornada por um porta-voz — seja o filho, seja qualquer outra pessoa, com ou sem procuração. E ele lembra que não é a primeira vez que esse caminho é usado.

Vamos lembrar o episódio que levou Bolsonaro à prisão pra começo de conversa. Foi justamente a transmissão de uma mensagem de Bolsonaro numa manifestação bolsonarista, no celular de Flávio.

Bom, o que nos leva à segunda pergunta: que efeito essa proibição de visitas e a própria carta em si vão ter para Flávio Bolsonaro? E o que a live que ele fez pra criticar Moraes revela sobre os eleitores, e as eleitoras, que ele vem perdendo?

Fica aqui comigo pra gente papear mais um pouquinho. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio.

Tem coisa que a gente só vai saber depois das próximas pesquisas, verdade. Tem coisas que as pesquisas anteriores já informam e indicam.

E você já sabe que o Meio faz pesquisa mensalmente com o Instituto Ideia e que assinante premium do Meio tem acesso antes de todo mundo aos resultados. Mas tem mais: assinante premium do Meio também pode acessar a nossa plataforma interativa, que permite que você faça cruzamentos demográficos com as intenções de voto e mergulhe nos dados do seu jeito. Assine o Meio, ajude nosso jornalismo a seguir firme e forte em cada cantinho da sua vida digital.

As leituras sobre o que a proibição de Moraes vai causar na campanha bolsonarista estão variando. A começar dentro do próprio STF, onde alguns magistrados expressaram que acham a decisão exagerada e defendem que Moraes a reveja.

No entorno de Michelle Bolsonaro, há duas correntes: aquela que pensa que ela sai vencedora, já que se torna a única interlocutora de Jair e, portanto, sua real porta-voz, ainda que sem o título. E há os que veem nessa falta de título um esvaziamento completo de sua interlocução, tornando a voz de Michelle rouca, quase inaudível.

No QG de Flávio, tem aliado jurando que pra ele é melhor, porque agora o senador está livre pra fazer alianças e montar palanques sem precisar do aval do pai. Há ainda a percepção de perseguição política, que sempre ajudou a mobilizar o bolsonarismo, certo? Sempre fez parte de sua estratégia isso de forçar os limites da lei, ser punido pela Justiça e se dizer vítima em seguida.

Num momento de tamanha fragilidade da campanha, reacender essa chama mobilizadora é bastante útil.

Agora, tem um último ponto importante. De que fragilidade estamos falando? Ele está perdendo apoio entre mulheres. Especificamente. Os homens já voltaram para sua base depois do escândalo Dark Horse.

E no vídeo que fez pra criticar Moraes Flávio decidiu adotar 100% o modelo mais agressivo dos discursos do pai. Ao falar de estupradores e de combate ao crime, usou palavrões, fez gestos obscenos, chamou tudo de vagabundo, aquele jeitinho que conhecemos. É um comportamento que tem apelo com homens. Mulheres, conservadoras ou não, tendem a rechaçar esse tipo de postura.

Estaria Flávio Bolsonaro em modo desespero, tentando se manter viável para ir pro segundo turno, pensando só em mobilizar o caminho mais fácil dos bolsonaristas mais radicalizados, e deixando pra conquistar o voto feminino no segundo turno? E será que esse voto feminino pode ser conquistado ali adiante? Olha, estava previsto para esta semana o lançamento do plano Brasil por Elas, focado em mulheres, pela pré-campanha de Flávio — e o evento ainda não foi confirmado. O porta-voz vai precisar ter algo mais a dizer a elas se quiser ir a algum lugar.

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