O Meio utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência. Ao navegar você concorda com tais termos. Saiba mais.
Assine para ter acesso básico ao site e receber a News do Meio.

O truque do TSE

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail

Assine agora. É grátis.

Ontem, o presidente do TSE fez uma proposta que parece a coisa mais razoável do mundo. Premiar, com um selo, os institutos de pesquisa que mais acertarem o resultado da eleição. Quem chega perto da urna ganha um selo de qualidade. Justo, não é? Então: é exatamente aí que mora o truque. Porque essa ideia, que se veste de mérito, faz o contrário do que promete: ela não premia a boa pesquisa. Ela premia a fraude. Vem comigo.

PUBLICIDADE

A pergunta que o selo faz é uma só: você chegou perto do resultado da urna? Chegou, ganha o selo. Não chegou, azar. E olha que isso soa tão sensato que é difícil, de primeira, botar o dedo no problema. Mas o problema está na própria régua. Porque medir uma pesquisa pela distância até a urna é medir a coisa errada. Eu sei, a gente está acostumado a pensar em pesquisa como previsão de resultado. Não é isso.

Deixa eu explicar por quê. Uma pesquisa eleitoral não é uma previsão. Ela é um retrato. Ela mede o que as pessoas estão pensando no dia em que o entrevistador bateu na porta, interrompeu no meio da praça, ligou para a pessoa pelo telefone. Não é no dia da eleição, que pode ser três semanas depois. Ou dois meses depois. Ou um ano. E entre um dia e outro o eleitor muda de ideia, desiste de votar, é surpreendido por um escândalo, assiste a um debate. A pesquisa não erra quando a urna dá diferente. Ela só fotografou um momento que, depois, mudou.

Pensa num termômetro. O termômetro mede a sua febre agora. Ele é um bom termômetro se mede a temperatura certa, hoje. Agora imagina que alguém resolva premiar o termômetro que acerta a febre que você vai ter amanhã. O que é que esse termômetro vira? Vira bola de cristal. Este termômetro não existe. E aí ele para de fazer a única coisa que um termômetro serve pra fazer — que é medir o presente — e passa a torcer por um palpite sobre o futuro. É isso que o selo faz com a pesquisa. Ele pega um instrumento que mede o hoje e cobra dele que adivinhe o amanhã.

E aqui a coisa fica pior. Porque uma vez que a régua é “chegar perto da urna”, pergunta comigo: qual é o jeito mais barato de ganhar esse selo? Não é fazer a melhor pesquisa. Fazer pesquisa séria é caro — é campo, é metodologia, é gente treinada batendo em milhares de portas. Dá trabalho e custa dinheiro. O jeito esperto, o jeito preguiçoso, é outro: você deixa os institutos sérios fazerem o trabalho, fica olhando os números deles o ano inteiro e, na última semana, ajusta os seus pra colar no consenso. Copia a lição do colega na hora da entrega. E aí, quando a urna sai, você está lá, pertinho, com o mesmo selo de quem suou pra chegar. O selo não premia quem mediu o país. Premia quem chutou por último.

Este é um alerta que a própria ABEP, a Associação dos Institutos de Pesquisa, ligou, ontem. Eles dizem, com todas as letras: um instituto sem rigor pode simplesmente acompanhar os sérios e, na reta final, convergir pro consenso pra faturar o prêmio. E o TSE não vai ter como distinguir quem produziu ciência de quem apenas copiou. Não tem como. O selo, que era pra separar o joio do trigo, faz o contrário: dá a mesma medalha aos dois.

Tudo bem. Agora é a sua vez de ligar um alerta. Claro que a ABEP é contra — é o sindicato dos caras. Estão defendendo o próprio negócio. Quem sabe não estão com medo do TSE. E é justo desconfiar. Mas para e pensa comigo um segundo. A vítima disso não são os institutos. Os institutos ruins, aliás, adorariam o selo — é passe livre pra picaretagem. A vítima é você. É o eleitor que vai entrar na reta final de 2026 sem conseguir mais saber qual número é um retrato honesto do país e qual é uma aposta enfeitada pra ganhar um selo. E olha, eu falo isso de um lugar meio incômodo: eu vivo de ler pesquisa aqui, toda semana, pra você. Sim, a gente tem uma parceria com o Instituto Meio/Ideia. Mas vocês me conhecem. Uso números da Quaest, da Nexus, do Ipespe, do Ipsos-Ipec, da Atlas.

Sabe por quê? Pesquisa de opinião é uma ferramenta científica. Pesquisa boa não é a pesquisa de um instituto, é ter acesso às pesquisas de muitos institutos. Se muitos institutos estão apontando para mais ou menos o mesmo cenário, aí você entende bem o desenho. Isso quer dizer que muitos estatísticos, demógrafos, pesquiseiros, com técnicas diferentes, olharam para o mesmo país e fizeram o mesmo retrato. A pesquisa diferente das muitas é aquela da qual você desconfia. Quando muitas pesquisas veem a mesma coisa, a probabilidade de elas estarem corretas dispara. O melhor para o eleitor é pluralidade, é quantidade. Não é selo. E o que o presidente do TSE propôs, com a melhor das intenções aparentes, é justamente o incentivo que torna os números menos confiáveis. Não mais.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Sabe, é isso. Pesquisa não é bola de cristal, é um retrato do país. Durante muito tempo, nós mesmos, da imprensa, fizemos parecer que era uma previsão. Quando é um pulso. Parte do que a gente tem tentado fazer nesta eleição, aqui no Meio, é mostrar o que realmente conseguimos medir com pesquisas. O que dá para ler, o que não dá. Tem muita informação, mas nada é exato, preciso. Esse retrato honesto do Brasil é uma das coisas mais valiosas — e mais atacadas — que a gente tem. Outra coisa que trabalhamos para entregar a vocês é a possibilidade de que mexam com pesquisa de um jeito que o eleitor jamais pode mexer. Entrar mesmo nos números da pesquisa. Na Pesquisa Meio/Ideia, na nossa plataforma, você vai lá dentro de cada pergunta. Como os homens responderam a essa aqui, o que quem é do Nordeste acha, vamos comparar com o Centro-Oeste? Abra o Brasil. Leia nosso país como quem lê um livro. Não existe nada como isso para os eleitores. E, se você precisa de ajuda para entender, a gente faz isso. Com artigos, com documentários no streaming. Não uma coisa monótona. Mas a leitura que a ciência ajuda a fazer da política de verdade, que não é a dos políticos. Mas a dos brasileiros. O que pensam. Estamos entrando numa das eleições mais importantes da história. Nós, do Meio, te oferecemos o tipo de ferramenta que jamais existiu para os eleitores. Assine. Quem não topa dinheiro de Bet, vive da assinatura de cada eleitor consciente. Só 15 reais.

Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

O que me preocupa aqui: uma coisa é uma proposta ingênua, malpensada, dessas que se conserta numa mesa de conversa. Outra, bem outra, é o que acontece quando você planta a semente da dúvida sobre todas as pesquisas às vésperas de uma eleição. Pega 2018. Na última semana da eleição, houve uma mudança intensa, rápida e profunda do eleitorado. A eleição de Wilson Witzel, governador do Rio, de Romeu Zema, governador de Minas, fez parte deste movimento. Um movimento abrupto e importante do eleitorado precisa ser estudado. A pesquisa tirou a foto numa semana, na semana seguinte a foto mexeu muito, a urna viu um terceiro resultado. Isso é base para os cientistas políticos, os sociólogos, os antropólogos mergulharem, cada qual com suas ferramentas, para tentar entender. Sem entender, e hoje a gente entende bastante o que aconteceu ali, a gente perde capacidade de saber o que o Brasil é e quando ele muda. Perdemos a possibilidade de saber por que ele muda. Não percebemos quando está instável. O selo do ministro ia dizer que as pesquisas são ruins. Os cientistas olham e veem um país numa violenta transformação. O que o selo diz só atrapalha o trabalho dos cientistas.

A ferramenta tira um retrato. Um juiz, um único juiz que preside o TSE, espera que ela seja uma bola de cristal. Bem, o problema não para no truque. Repara no que está por trás dessa ideia de selo. Não é só uma régua errada. É a Justiça Eleitoral se candidatando a um cargo que não é dela — o de juíza da ciência. Pensa comigo. Um tribunal, feito de juristas, gente que estudou Direito e não estatística, decidindo por critério oficial qual pesquisa é boa e qual é ruim. Aliás, só de o presidente da Corte decidir que o critério é este, já sabemos que ele não tem ideia de para que serve pesquisa. Por isso mesmo que ele adotou o pior critério que existe: quem chegou perto da urna. Sabe o que é isso? É o Estado carimbando uma verdade. É o Estado dizendo: este retrato do Brasil tem o meu selo; aquele ali, não tem. No que isso é diferente do TSE, por exemplo, decidindo que veículo de imprensa é bom e que veículo de imprensa é ruim? O tribunal tem esse papel?

E o problema de um tribunal decidir qual fotografia do país é a verdadeira não é técnico. É de outra natureza. Num país sério, não é o governo nem a corte que diz qual é a imagem correta da opinião pública. Quem diz isso é o método, é a pluralidade, é o escrutínio de quem entende — que foi tudo que a gente conversou até aqui. No instante em que um único ministro do tribunal se arvora nesse papel, ele deixa de garantir a lisura do jogo e passa a mexer no jogo. Essa é a última coisa que uma democracia pode querer num ano de eleição. Vamos deixar o trabalho técnico para os técnicos?

E olha, isso não engana um lado só. Uma pesquisa envenenada ilude tanto quem torce pra cá quanto quem torce pra lá. Um país que não confia mais em nenhum termômetro é um país onde cada um inventa a própria febre. Onde quem perde nunca perde de verdade — foi sempre fraude, foi sempre manipulação. A gente já viu esse filme, aqui e lá fora. E você sabe como ele termina.

Então deixa eu fechar. A pesquisa não é a rainha da verdade, longe disso. Ela erra, ela tem limite, ela é um retrato meio tremido de um momento que já passou. Mas é o melhor instrumento que a humanidade inventou pra olhar dentro de um país de duzentos milhões de pessoas. Numa democracia, isso é precioso. Quando você entra na cabine pra votar, você merece entrar enxergando o Brasil como ele é — não a versão que rende selo, não a versão que rende voto. Proteger esse termômetro não é defender instituto de pesquisa. É defender o seu direito de votar sabendo onde você pisa. Por isso uma ideia que parece a coisa mais razoável do mundo — premiar quem acerta — pode ser, no fundo, uma das mais perigosas que apareceram nesta eleição. Fica de olho nela.

Encontrou algum problema no site? Entre em contato.