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Quer derrotar Lula? Larga o Flávio

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Você. Você que está cansado de Lula na presidência. E que não é bolsonarista. Hoje quero conversar com você. Talvez você não saiba disso, mas você não está sozinho. Olha, pela nossa pesquisa Meio/Ideia, gente como você dá próximo de 40% de todo o Brasil. É muita gente. É tanta gente que, todo mundo junto, poderia determinar o resultado dessa eleição. Mas a gente olha para as pesquisas e tem a sensação de que não tem como, não tem caminho, parece inevitável. Flávio e Lula no segundo turno, toda a pinta de que Lula deve ganhar de novo. Me dá dez minutos da sua atenção? Prometo que não é muito mais do que isso.

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Não vote em Flávio Bolsonaro. É contra o seu interesse duplamente. Olha, você não quer Lula eleito. Flávio Bolsonaro é o único candidato que tem rejeição maior do que a de Lula no eleitorado brasileiro. Deixa eu te falar uma coisa que todo analista político compreende sobre pesquisas de segundo turno. Elas valem pouco. Enquanto o eleitor não tem de fato que fazer a escolha entre os dois lá, essas pesquisas são muito abstratas. Na hora do segundo turno, é antipetismo contra petismo, e no Brasil tem mais antipetista do que petista. Só que tem mais ainda antibolsonarista do que antipetista. Percebe como Flávio é bom pra Lula?

Então qual é sua melhor estratégia como eleitor? Vamos começar com o processo mental de escolher um candidato, quando você não tem. Estou falando da pessoa aqui. Como é que funciona? Você não sabe em quem vai votar, digamos isso. Pois é. Aí vê um vídeo de alguém e gosta. Naquela noite, no chope com amigos, comenta. Acho que vou votar no Cicrano. Algumas das pessoas à mesa têm opinião sobre Cicrano. É um picareta! É ótimo. Dois dias depois, num almoço com colegas da firma, faz o mesmo comentário. Acho que vou votar no Cicrano. Mais comentários. Qualquer um de nós vai, nesse processo, testando. Você vai namorando com a ideia de apoiar aquele nome. Testa qual a receptividade entre pessoas de quem gosta e de quem não gosta. Presta também mais atenção no que o Cicrano fala. Vê outros vídeos, lê umas coisas sobre ele.

A gente vê muito estes processos nas pesquisas eleitorais. Isto tudo é parte do processo de namoro. Porque, sabe, quando um grupo de eleitores para e presta atenção num candidato, isso é meio contagioso. Então vai formando uns grupos maiores até que aparece nas pesquisas. Aí, de novo, a gente percebe esse movimento. Sobe um ponto, dois, três.

A hora para experimentar é agora. Muita gente vai começar a fazer justamente esse teste. Então se junte. A gente não sabe o que acontecerá no dia 3 de outubro, quando todos votaremos para presidente. Então a Copa do Mundo passou, a partir deste fim de semana temos as convenções nacionais. Há três candidatos de direita que não se chamam Bolsonaro. Presta atenção no que estão falando. Você imagina algum deles como presidente da República? Tira umas semanas para pensar. Testa dizer, em voz alta, na família, entre amigos, meu candidato é Cicrano e este Cicrano não é Flávio.

Lembra daquele clima de guerra permanente do governo do pai? Sabe presidente da República que fica gritando palavrão todo dia de manhã na porta do Palácio? A gente quer isso de novo? Vê ontem, por exemplo. Falou que o Brasil usa urnas eletrônicas da Smartmatic, uma empresa venezuelana que fraudou as eleições lá, de 2012. É tudo mentira. Tudo. A Smartmatic é uma empresa americana que se mudou para Londres há poucos anos. Eu estava no Tribunal Superior Eleitoral venezuelano na eleição de 2012. Literalmente dentro do tribunal. Não teve fraude nenhuma em urna. O governo do Chávez desligou as luzes do tribunal, ficou mais de meia hora sem luz, aí voltou. Quando voltou, o Chávez tinha aberto vantagem sobre o adversário. Eles fraudaram nos servidores. Não foi nas urnas. Que nem nessa eleição última do Maduro, agora. Como é que fizeram? Fraudaram nos servidores do tribunal. Não na urna. Na verdade, tiveram de sumir com os boletins de urna, porque eles justamente comprovariam a fraude. Agora, sabe qual é a pior mentira de todas? Não vai ter nenhuma urna da Smartmatic na eleição brasileira. Nenhuma.

O Flávio decidiu ser que nem o pai. Mente, mente na cara dura. Mente sabendo que está mentindo. Ele não está repetindo uma coisa que ouviu, desavisado. Não. Ele sabe que é mentira. Está mentindo de propósito. Porque esse é o jeito de a família fazer política. A empresa não é venezuelana, não houve fraude nas urnas venezuelanas, pelo contrário, é a única coisa que funcionou nas eleições lá. E não tem aquele modelo de urna na eleição daqui. Então, vamos lá, os caras ficam falando que mulher não sabe votar, são parceiros do Vorcaro, lideram o grupo político que governa o Rio de Janeiro este tempo todo, e mentem sem ter nem vergonha.

Gente: o cara é tão pouco confiável que nem o Centrão quer fazer aliança com ele. Vai fazer convenção no sábado e ainda não conseguiu ninguém relevante que tope ser vice. É este o nível.

Aliás, falei do Rio de Janeiro? É. Sabia que o camarada que o Flávio escolheu para ser candidato dele, aqui no Rio, foi preso duas semanas atrás? Entende qual é o padrão? O pessoal bolsonarista puro-sangue pode ficar repetindo que, no gabinete do Flávio, ele não sabia que tinha gente ligado a milicianos. Inocente. Mas não é o seu caso. Vem cá. Muito cá entre nós. Você sabe que essa gente Bolsonaro é um problema, não sabe? A gente sabe. Com exceção de uma minoria, no Brasil, quase todo mundo sabe. E eu sei qual é o seu problema. Mas aí o Lula ganha. É o Flávio que está na frente. Só que dá pra mudar. E não precisa de muito para mudar. Flávio Bolsonaro precisa perder cinco pontos. Só isso. Cinco pontos até início de setembro. Se acontecer, ele desmonta. Há muito tempo não vemos uma chapa de oposição tão frágil. Vem comigo, eu explico.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Semana passada fiz uma pergunta a um número grande de leitores do Meio: o que você mais quer entender sobre este país? Quase 800 pessoas responderam. Eu li.

E teve uma pergunta que apareceu de novo, e de novo, quase com as mesmas palavras: se ninguém aguenta mais os dois, por que nenhuma alternativa sobe nas pesquisas?

Pois é. Essa é exatamente a pergunta que eu passei o último ano perseguindo. Vocês escreveram, sem combinar, a sinopse de um filme que eu já tinha feito. O filme se chama Os Partidos.

Ele abre hoje, às sete da noite, no YouTube do Meio. E fica no ar até o fim da noite de domingo. Começou como um filme sobre a eleição. Virou uma coisa que todo brasileiro devia ver antes de votar.

Os Partidos é parte de uma série — e a série inteira, com o resto do catálogo, está no streaming do Meio. O que você vai ver de graça até domingo é um gosto do que tem lá dentro. Assine o Meio. São só quinze reais.

E este aqui? Este é o Ponto de Partida.

Flávio é o candidato que mais fortalece Lula. Se perder cinco pontos, ele desmorona. Como essa conta fecha? Presta atenção, porque essa é a estratégia que está na cabeça de todo o mundo político. É o motivo pelo qual o Centrão não faz aliança. Todo mundo acha que é uma pergunta real.

Se ninguém aguenta mais os dois, por que nenhuma alternativa sobe nas pesquisas? Pois é. A resposta é mais simples do que parece. Alternativa não sobe porque ninguém começa. Todo mundo olha pro número do outro candidato, vê 4%, 3%, e conclui: esse não tem chance. Só que o número está baixo justamente porque todo mundo concluiu a mesma coisa. É um país inteiro esperando o vizinho dar o primeiro passo.

O que a maioria das pessoas fora do mundo político não percebeu é que a muralha do Flávio é mais fina do que aparenta. Ele já perdeu cinco pontos. Cinco. E perdeu praticamente só entre as mulheres. A gente mediu, pesquisa após pesquisa: veio o áudio dele pedindo dinheiro pro Vorcaro, veio o escândalo do Banco Master com dezenas de milhões na conta da família, veio o machismo com a Michelle. Os homens que saíram, voltaram. As mulheres, não. Mulher conservadora tem memória.

Se ele perder mais cinco, são dez. Dez pontos é o total da gordura que ele tem. Não existe décimo primeiro ponto de sobra. Abaixo disso, Flávio deixa de ser o nome inevitável do segundo turno. E candidato que deixa de ser inevitável perde a única coisa que o sustentava.

Porque, vem cá, quem sobra com ele? Uns 25% mais sólidos. Tem uma turma de esquerda que acha que é tudo fascista, tudo fanático. Não é. Metade desses 25% é gente que simplesmente não parou pra pensar. Na boa, quem tem tempo? Tem condução pra pegar de manhã, o patrão com mau humor, o filho doente precisa levar no posto, pintou um corre à noite para fazer um troco, domingo a gente abre uma cerveja, assiste ao jogo, pelo menos um dia de descanso. Vai. Então vota ali por hábito, por time, porque o grupo da família manda figurinha. Voto de inércia. E voto de inércia tem uma característica: ele não muda por argumento. Ele muda por insegurança. No dia em que esse eleitor percebe que o candidato dele apanha, que o número caiu, que o primo hesitou no churrasco — ele para. E parar pra pensar, pra esse voto, já é o começo do fim.

Cientista social tem nome pra isso: tipping point, o ponto da virada. É a lógica da avalanche. A encosta aguenta neve caindo o inverno inteiro, aguenta, aguenta — até o floco que ela não aguenta. Apoio político desmorona assim. Não é aos poucos. A gente já viu, eleição após eleição: candidato que parecia inevitável em julho e, em setembro, tinha sumido do mapa. Flávio já perdeu cinco. Se perder mais cinco até setembro, entra no lugar em que qualquer poeira faz desabar. Quem assume o segundo lugar? Não tenho ideia. Tem três pelo flanco direito.

Então recapitula comigo a estratégia, que ela é simples. Você, que está nos 40%: escolhe um candidato de direita que não se chama Bolsonaro. Testa. Fala em voz alta. Cada vez que você fala, um ou dois param pra prestar atenção. O número mexe um ponto. O ponto vira notícia. A notícia gera insegurança lá na muralha. A insegurança move quem nunca tinha parado pra pensar. E cinco pontos — só cinco, até o início de setembro — derrubam o resto.

Ninguém precisa converter bolsonarista raiz. Ninguém precisa brigar com o tio no almoço de domingo. Precisa só parar de esperar o vizinho. A eleição não está decidida. Ela está parada, esperando alguém começar. Começa hoje. Começa em voz alta. Começa por você.

Faltam cinco.

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