Edição de Sábado: O aniversário do tarifaço

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Na tarde de 2 de abril de 2025, bandeiras estavam alinhadas no Rose Garden, trabalhadores da indústria ocupavam a plateia e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, carregava um grande painel preto. Ao exibir países e alíquotas como quem apresentava um novo mapa da economia mundial, batizou a cerimônia de “Dia da Libertação” e prometeu uma declaração de independência econômica.
Por trás da cenografia estava o “cálculo de guardanapo”, no qual, em vez de verificar as tarifas cobradas sobre produtos americanos, o governo tomou o déficit bilateral de bens, dividiu pelo valor importado de cada parceiro e reduziu o resultado à metade, com um piso de 10%. Ainda que revestidos de parâmetros técnicos, os valores resultantes da equação não se sustentavam. Não se considerou o comércio de serviços, as cadeias globais de produção, os movimentos cambiais e o fato de que um déficit bilateral não prova que o outro país esteja cometendo alguma infração comercial.
A relação com o Brasil é mais um de vários exemplos do amadorismo que vem guiando as decisões comerciais nos EUA. Em 2024, o país nos vendeu US$ 7,4 bilhões a mais do que comprou. Pela lógica declarada, não haveria déficit americano a corrigir; ainda assim, os produtos brasileiros receberam a tarifa mínima de 10%. Economias pobres, que vendiam roupas, alimentos e matérias-primas aos americanos, mas não tinham renda para importar aviões ou máquinas na mesma proporção, receberam algumas das maiores alíquotas. Até as ilhas Heard e McDonald, território australiano remoto sem população permanente, apareceram na lista.
Algum tempo depois, a Suprema Corte invalidou a via emergencial utilizada naquela rodada; a Casa Branca recorreu a outros instrumentos da legislação comercial, entre eles a Seção 301, mas essa mudança do aparato jurídico não alterou o uso da política comercial para pressionar decisões internas de outros países.
Entre várias ameaças, o governo americano emitiu uma ordem contra o Brasil em julho de 2025 associando a sobretaxa ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, às decisões do Supremo Tribunal Federal e ao tratamento dispensado às empresas americanas de tecnologia.
No mais recente capítulo da saga protecionista americana, em 15 de julho de 2026, exatamente um ano depois de abrir uma investigação comercial contra o Brasil, Trump confirmou uma tarifa adicional de 25%, que entrará em vigor no dia 22. Permanecem taxados produtos como máquinas, equipamentos elétricos, calçados, vestuário, papel e itens de madeira; café, carne bovina, determinados produtos energéticos e componentes aeronáuticos estão entre as exceções. A decisão final do Escritório do Representante (USTR) veio após mais de 360 manifestações escritas e uma audiência pública de dois dias, na qual foram ouvidas 77 testemunhas. Apesar dessa operação, o Brasil apenas aumentou a lista de produtos isentos.
A narrativa voltou a usar mais argumentos econômicos. A investigação encerrada agora substituiu parte da linguagem política por acusações de práticas consideradas desleais envolvendo o Pix e outros serviços de pagamento eletrônico, o mercado de etanol, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, regras anticorrupção e desmatamento ilegal. A mudança, porém, não impediu o secretário Marco Rubio de retomar o confronto político ao afirmar que Lula não negociou de boa-fé e colocou o próprio ego à frente de um acordo.
A alternância entre justificativas políticas e econômicas mostra que ambas se apoiam numa mesma visão sobre o funcionamento da economia mundial. Nela, importações representam dependência e perda de empregos, enquanto exportações seriam a recompensa pela força produtiva de um país. O déficit comercial funciona como placar: quem compra mais do que vende estaria perdendo; em suma, há ganhadores e perdedores nessa disputa. A tarifa serviria, ao mesmo tempo, para pressionar governos, obrigar parceiros a ceder e tentar atrair fábricas ao solo americano. Essa concepção já aparecia no primeiro mandato e na ordem do “Dia da Libertação”, que tratava déficits persistentes como ameaça à segurança econômica e nacional.
Um cepalismo do centro
Essa leitura do comércio como disputa pela localização da produção industrial aproxima Trump, ironicamente, de uma tradição latino-americana. Em Raúl Prebisch e Celso Furtado, a proteção da indústria partia de uma promessa: ao reservar parte do mercado interno às empresas nacionais, os países ganhariam escala, acumulariam tecnologia, elevariam a produtividade e reduziriam a dependência da exportação de produtos primários. A industrialização permitiria alterar a estrutura produtiva e, com ela, as condições do desenvolvimento.
Contudo, por aqui a proteção ajudou a atrair fábricas, mas não entregou o resultado que a justificava. Em boa parte da América Latina, empresas voltadas a mercados domésticos foram sustentadas por tarifas, subsídios e crédito público, enquanto consumidores pagavam preços mais altos para preservar setores pouco expostos à concorrência. Mesmo com mais produtos industriais nacionais, o setor industrial segue dependente de máquinas, componentes, capital e tecnologia importados. Além disso, em muitos casos, o custo fiscal e o encarecimento do consumo não se traduziram em ganhos duradouros de produtividade, renda ou competitividade. Ou seja, a região passou a ter mais fábricas, mas não convergiu de forma sustentada para o padrão de renda dos países ricos.
Trump se elegeu e reelegeu em parte ao recuperar essa promessa: restringir importações, ampliar a produção doméstica e reconstruir a prosperidade industrial. Entretanto, os Estados Unidos não ocupam a periferia descrita por Prebisch e Furtado. Ao contrário, fazem parte do centro tecnológico, financeiro e produtivo do sistema, exportam serviços sofisticados, propriedade intelectual e emitem a moeda usada nas transações globais. Ainda assim, o governo apresenta o país como vítima de uma estrutura comercial que o teria condenado à dependência de outros países.
Essa visão também confunde perda de participação da indústria no emprego com decadência econômica. A manufatura americana passou a produzir mais com menos trabalhadores, enquanto o crescimento da renda deslocou consumo e emprego para a saúde, a educação, a tecnologia e outros serviços. Como mostra Robert Lawrence, a indústria continuou contribuindo de maneira relevante para o crescimento da produtividade mesmo enquanto sua participação no emprego diminuía. O comércio com a China provocou perdas profundas em algumas regiões, mas não explica uma transformação iniciada décadas antes. O crescimento dos Estados Unidos ocorreu com a mudança da composição setorial, não apesar dela.
O resultado é uma espécie de cepalismo do centro: Trump tenta proteger a economia mais rica do mundo da integração que ajudou a torná-la rica. Ao interpretar o déficit comercial como derrota e a produção externa como perda, transforma interdependência em dependência e ignora que o acesso a mercados e tecnologias também sustenta ganhos de produtividade. A relação positiva entre a integração ao comércio e o aumento da renda para vários países é constatada no trabalho de Jeffrey Frankel e David Romer. Ainda, essa mesma expansão nas últimas décadas acompanhou uma redução histórica da pobreza global, de acordo com o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio.
Esses ganhos, claro, não foram distribuídos igualmente: setores, regiões e trabalhadores expostos à concorrência externa podem sofrer perdas profundas e persistentes. Isso exige políticas de transição e formação técnica para realocação profissional, não a conclusão de que um país empobrece sempre que importa. Ao tentar reconstruir o passado industrial pela força das tarifas, Trump aplica à economia mais rica do mundo uma estratégia que não produziu desenvolvimento sustentado nem mesmo nas economias periféricas para as quais foi concebida.
Quem pagou a conta?
As tarifas americanas do atual mandato foram repassadas quase integralmente aos preços finais. Os exportadores estrangeiros pouco reduziram seus valores para absorver a cobrança, de modo que, na fronteira, quem pagou foi o importador americano. Depois, o custo foi dividido entre empresas, que comprimiram margens, e consumidores, que enfrentaram preços maiores, conforme estimaram Gita Gopinath e Brent Neiman em “The Incidence of Tariffs: Rates and Reality”.
O impacto agregado ficou abaixo do sugerido pelas alíquotas anunciadas porque a cobrança efetiva correspondeu a aproximadamente metade das taxas legais. Exceções, atrasos nos embarques, dificuldades de implementação e mudanças de fornecedores abriram uma distância considerável entre o anúncio presidencial e o que de fato foi recolhido. O custo menor decorreu, em parte, da execução incompleta da política, não de uma capacidade dos estrangeiros de pagar a tarifa no lugar dos americanos.
Mesmo assim, pesquisadores do Federal Reserve Board estimaram que as tarifas elevaram em 3,1% o nível dos preços dos bens do núcleo do índice de despesas de consumo pessoal até fevereiro de 2026. O efeito acumulado sobre o núcleo do PCE foi de 0,8%. As famílias de baixa renda suportam um peso proporcionalmente maior, pois gastam uma parcela mais elevada do orçamento em bens e têm menos margem para reorganizar as compras.
Em contrapartida, fábricas e empregos não retornaram na escala prometida. Condados mais expostos à concorrência de importações tiveram pequenas reduções do desemprego, enquanto os dependentes de insumos estrangeiros registraram perdas marginais no mercado de trabalho. No conjunto, os efeitos foram economicamente desprezíveis, segundo um estudo do Federal Reserve de Richmond. A proteção favoreceu algumas empresas, mas o encarecimento de equipamentos e componentes anulou parte do ganho.
O déficit da balança comercial cresceu 2,1% em 2025 e chegou a US$ 1,24 trilhões, conforme o Bureau of Economic Analysis. As empresas reduziram a dependência de alguns países, especialmente da China, mas transferiram encomendas para outros fornecedores. Ou seja, mudou-se a origem das importações com mais facilidade do que o volume total comprado no exterior.
Brasil: perdas concentradas e amortecidas
Aqui no Brasil, a tarifa atingiu sobretudo setores que dependem mais do mercado americano e têm menos facilidade para encontrar novos compradores. Madeira, móveis, máquinas, calçados, couro e parte das exportações de alimentos ficaram entre os mais expostos em 2025. Nesta nova rodada, máquinas agrícolas e industriais, equipamentos elétricos, vestuário, papel e produtos de madeira continuam sujeitos à sobretaxa de 25%.
A incidência, porém, nunca correspondeu integralmente à alíquota anunciada. Em 2025, petróleo, aeronaves e minério de ferro ficaram fora da sobretaxa de 40 pontos percentuais, enquanto café, carnes e outros produtos foram atingidos durante parte do ano. Com o avanço das negociações, esses produtos agrícolas também conseguiram escapar na medida em que pesaram muito no bolso dos americanos. A distribuição de certa forma reflete também quais setores conseguiram demonstrar que a cobrança prejudicaria cadeias produtivas nos próprios Estados Unidos.
A tarifa média sobre os produtos brasileiros subiu de 1,3% para 9,1% neste último ano, segundo o Banco Central. As exportações para os Estados Unidos recuaram 6,7% em média, com o prejuízo sendo maior onde a dependência do mercado americano era mais alta. No Sul, por exemplo, as exportações caíram 44%, com perdas concentradas em madeira, móveis, calçados, couro, carnes e máquinas.
A perda acumulada até o momento chegou a cerca de 0,1% do PIB e a 0,8% das exportações brasileiras, enquanto as vendas para outros destinos cresceram e o total exportado avançou 3,3% em 2025. A diversificação não eliminou os prejuízos de empresas e regiões específicas, mas impediu que o conflito com os Estados Unidos se transformasse numa crise geral das exportações.
Negociar para abrir
Embora a negociação não tenha impedido os aumentos de tarifas, mostrou onde havia espaço para reduzi-las. O USTR ampliou as exceções depois que empresas americanas demonstraram que a cobrança encareceria matérias-primas e interromperia cadeias produtivas nos próprios Estados Unidos.
A retaliação tarifária é a resposta mais intuitiva e também a mais parecida com a de Trump. A Lei da Reciprocidade pode servir como ameaça durante as negociações, mas, quando a tarifa sai do discurso e chega à alfândega, quem paga são consumidores e empresas brasileiras. Produtos importados ficam mais caros, fabricantes que dependem de máquinas e componentes americanos perdem competitividade e os Estados Unidos podem responder com novas barreiras. O caminho institucional passa pela contestação na Organização Mundial do Comércio, pela negociação de exceções e pela redução da dependência de um único destino.
Essa diversificação nunca ocupou um lugar consistente na política econômica brasileira. Governos de orientações distintas preservaram tarifas altas, acumularam poucos acordos fora da América do Sul e trataram o tamanho do mercado interno como substituto da integração internacional. Mesmo com avanços recentes, a abertura comercial do Brasil continua inferior à de outras economias emergentes e as barreiras tarifárias permanecem elevadas, segundo a OCDE. O acordo Mercosul-União Europeia é um pequeno ponto fora da curva nessa trajetória, mas ainda precisa tomar corpo e não resulta de uma estratégia contínua de abertura.
Buscar novos mercados exige concluir outros acordos, reduzir obstáculos às importações de máquinas e tecnologia, facilitar exportações e ajudar empresas menores a cumprir padrões internacionais. Também exige reconhecer que a adaptação não acontece sem custos: trabalhadores e cidades dependentes do mercado americano precisam de crédito, requalificação e apoio à transição. Sobretudo, proteger indefinidamente cada setor atingido apenas transfere o prejuízo para o todo da população.
O tarifaço deveria servir como advertência sobre os riscos de depender de poucos parceiros e de acelerar uma agenda de integração que o Brasil há décadas posterga. Deveríamos então ampliar de forma permanente a participação do país no comércio internacional e reduzir sua vulnerabilidade a decisões de um presidente estrangeiro.
A fiel escudeira
Pendurada na parede, uma bandeira do Brasil amarrotada serve de pano de fundo para a transmissão. No reflexo do celular, “Ordem e Progresso” aparece escrito ao contrário. Em frente à bandeira estão o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e Daniella Marques (Republicanos), ambos vestindo camiseta verde. Ao apresentá-la, Flávio lembrou que Daniella é uma “grande amiga” que participou do governo de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Mais do que isso. “É uma pessoa que se alistou para estar do nosso lado, ajudar a construir não só um plano de governo, mas um plano de Brasil”. Ainda destacou outros de seus atributos fundamentais. “Vocês vejam como a Dani está maquiada, penteada, linda, bela, perfumada, alguém que está dando esse toque de competência nas nossas propostas de governo.”
Na live da última quinta-feira, ela fora recrutada para esmiuçar o Brasil por Elas (guarde este nome). Além de encabeçar o time que elabora o programa econômico do Zero Um, Daniella acabou escalada às pressas para estancar o desgaste de Flávio com o eleitorado feminino após o racha público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Para isso, a ex-braço direito de Paulo Guedes elaborou um pacote com 12 propostas voltadas às mulheres. Entre as apostas, um aplicativo em que “a mulher resolve a vida, sem perder tempo, sem burocracia”; a MarIA, uma inteligência artificial descrita como “uma amiga disponível 24 horas por dia”; programas de orientação financeira; e um sistema de cashback social, que devolveria recursos a mulheres que cumprissem determinadas ações, como manter a vacinação dos filhos em dia ou concluir cursos de capacitação.
Enquanto Daniella explicava diretrizes do programa, vez ou outra, Flávio a interrompia para ler alguns super chats, os comentários pagos enviados pela audiência. “Eu posso interromper, você não. Senão você vai ser misógino. Homem não pode mais falar, senão é misógino”, ironizou ela. Flávio logo tratou de esclarecer que era uma brincadeira da economista e aproveitou um dos comentários para alimentar as especulações sobre sua futura vice. “Minha preferência é que seja uma mulher. Estão falando muito o nome da Dani. Então é importante vocês conhecerem, olhando para a frente”. Daniella cobriu o rosto com as duas mãos. Em seguida, Flávio mencionou também a deputada Simone Marquetto (MDB), que acompanhava a transmissão nos bastidores e, segundo ele, ajudou a construir o Brasil por Elas. Daniella respondeu: “A Simone Marquetto, como eu, não está preocupada com cargo. Está preocupada em cumprir a missão. O foco é resgatar o Brasil das mãos do PT”.
Embora não tenha sido elencado como uma preocupação, nada demorou para o assunto “cargos” voltar à baila. Desta vez, foi a própria Daniella quem o puxou. Ao defender que um eventual governo deveria ser formado por critérios técnicos, usou a si mesma como exemplo. Disse entender de economia e finanças, mas não teria condições de comandar o Serpro (Empresa Nacional de Inteligência em Governo Digital e Tecnologia da Informação) ou o Ministério da Defesa. “Me dá minha vassoura, que eu vou melhor varrendo”, disparou. Após alguns segundos de risos constrangidos, completou: “vou varrendo a sujeira do PT”. Flávio emendou mais um super chat: “A Dani será uma vice espetacular”. Com um sorriso no rosto, ela evocou a vassoura mais uma vez: “eu sou a faxineira com a vassoura, vambora.”
A imagem voltou no encerramento da transmissão. Em sua última fala, Daniella convocou “as mães do Brasil” a ajudá-la a “varrer o PT”, para “proteger as famílias e permitir que as mulheres cresçam, construam seus sonhos e voem sozinhas”. Um abraço em Flávio selou a live, que reforçou os murmúrios em torno de seu nome para compor a vice-presidência na chapa do senador. Veja, a live não criou as especulações. Desde o rompimento entre Flávio e a madrasta, Daniella já circulava nos bastidores como uma possível vice. Quiçá, eventual ministra da Fazenda. Num momento em que Flávio tenta reduzir o desgaste entre o eleitorado feminino, ela reúne uma combinação rara no bolsonarismo, que também agrada caciques do Centrão: é mulher, tem trânsito no mercado financeiro – onde circula o apelido de “Paulo Guedes de saia”, embora ela rejeite a comparação —, acumulou experiências na gestão Jair Bolsonaro (PL) e, sobretudo, conquistou a confiança da família. Não é a primeira vez que lhe confiam uma missão delicada. Sempre que surge o desafio de dialogar com as mulheres, seu nome reaparece. E Daniella não recusa o chamado.
Leitão, arroz ou salada?
Assar um leitão, cozinhar um arroz ou preparar uma salada. Qual dessas tarefas Daniella faria primeiro? A pergunta parte do então presidente Jair Bolsonaro durante uma de suas lives. A economista hesita. “Vai devagar que eu sou loira, presidente”, responde, antes de escolher a salada. Bolsonaro corrige. O leitão deveria ir primeiro ao forno porque “leva quatro horas”. Depois viria o arroz, pronto em meia hora. A salada, por último, consumiria apenas dez minutos. “Que vergonha, ein? Você é o braço direito do Paulo Guedes na economia?”, questiona Bolsonaro. Os dois caem na risada. O trecho do vídeo virou o primeiro post fixado no perfil de Daniella no Instagram. Na legenda, ela lembra os “tempos de convívio intenso” com Bolsonaro e afirma que estarão juntos para “resgatar o Brasil”.
A relação, no entanto, começou muito antes das lives. Formada em Administração pela PUC-Rio, com MBA em Finanças pelo Ibmec, Daniella construiu uma carreira de duas décadas no mercado financeiro. Começou a trabalhar com Paulo Guedes em 2012 e, no ano seguinte, tornou-se sua sócia na Bozano Investimentos. Entre executivos da Faria Lima, é descrita como uma gestora técnica, disciplinada e capaz de coordenar equipes complexas. Ainda assim, não é unanimidade no mercado: alguns agentes veem com ressalvas sua capacidade de formular estratégias macroeconômicas.
Em Brasília, porém, sua reputação ganhou outro contorno. Mais política que Guedes, cuja atuação pública era frequentemente marcada pelo embate, Daniella se tornou a interlocutora do ministro com o Congresso. Circulava entre líderes partidários, traduzia a agenda econômica para a política e tentava destravar negociações em torno dos projetos prioritários da equipe econômica. Ela conta que decidiu trocar o mercado pela política ao assistir, em julho de 2018, à convenção do PSL que oficializou a candidatura de Bolsonaro à Presidência. “Mexida”, procurou Guedes. “Se ele ganhar, eu vou te ajudar”, disse. Assim, tornou-se a única mulher entre os 21 supersecretários escolhidos pelo futuro ministro da Economia para montar a nova pasta.
Na equipe de Guedes, começou como assessora especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia. Destrava a reforma da Previdência foi sua primeira grande tarefa. Durante as negociações, tornou-se presença frequente nos corredores do Congresso, onde conversava com líderes e tentava ajustar arestas antes das votações. Seu desempenho fez Guedes defender sua nomeação para a Secretaria de Governo, responsável pela articulação política do Planalto. A tentativa, porém, esbarrou em resistências das alas política e militar do governo. À época, a pasta era comandada pelo general da reserva Luiz Eduardo Ramos.
Promovida à Secretaria Especial de Produtividade e Competitividade, ganhou uma nova atribuição: liderar o Brasil pra Elas (sim), um programa que reunia acesso à crédito, cursos técnicos e informações sobre finanças para incentivar o empreendedorismo feminino. O plano foi lançado pelo governo Bolsonaro no Dia Internacional da Mulher de 2022. Mas o principal teste de Daniella como a mulher encarregada de reconstruir a relação do bolsonarismo com o eleitorado feminino viria meses depois, em um dos momentos mais delicados do governo Bolsonaro.
A sangria na Caixa
“Eu deixei minha vida, presidente. Minha cidade. Peguei meu filho e me uni ao senhor num projeto de país. Isso é o que a gente está consagrando aqui hoje. Fui sabotada, passei quatro anos disputando a guarda do meu filho para poder ir para Brasília ajudar o Brasil”, discursou Daniella, em meio às lágrimas, no lançamento do programa Caixa pra Elas (esse já é outro). O plano reunia três pilares: prevenção à violência, educação financeira e produtos bancários específicos para mulheres. Também criou espaços de atendimento em agências da Caixa e uma área dedicada no aplicativo Caixa Tem. Na presidência do banco havia cerca de um mês, estava ali uma de suas primeiras respostas para estancar a sangria aberta.
Poucas semanas antes, a revelação de denúncias de assédio sexual contra Pedro Guimarães mergulhou a instituição em uma das maiores crises de sua história. Relatos de funcionárias expuseram casos de constrangimento, investidas de cunho sexual, contatos físicos sem consentimento e abuso de poder atribuídos ao então presidente da instituição. O episódio levou à renúncia de Guimarães em 29 de junho de 2022, abriu um vácuo de comando e criou um problema político para o governo Bolsonaro em plena campanha à reeleição, afetando justamente seu eleitorado mais sensível. Coube a Daniella assumir a presidência do banco e liderar a tentativa de reconstruir sua imagem perante as mulheres.
“Quando o presidente Bolsonaro me convidou, com apoio do ministro Paulo Guedes, falou: ‘tenho uma missão para você. Agora a gente precisa de você no ataque’”, puxa na memória. Ela conta que não pensou duas vezes para aceitar o convite. E ali permaneceu, no comando do banco, até a transição de governo. Nesse período, porém, a instituição voltou ao centro de outra controvérsia. Na reta final da campanha de 2022, ainda sob a gestão de Daniella, o banco concentrou 99% de toda a carteira de crédito consignado do Auxílio Brasil liberada naquele ano entre o primeiro e o segundo turnos da eleição, segundo dados revelados pelo UOL. A distribuição reforçou suspeitas de uso eleitoral da instituição em benefício da campanha de reeleição de Jair Bolsonaro e motivou pedidos de investigação. Em 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) arquivou o caso. A Corte reconheceu a concentração das operações no período eleitoral, mas concluiu não haver irregularidades passíveis de responsabilização.
Nas trincheiras, mais uma vez
Após deixar o governo Bolsonaro, Daniella voltou à iniciativa privada, na gestora de investimentos Legend, em São Paulo. Ficou por lá até se licenciar novamente para se dedicar à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Aos 46 anos, ela auxilia o senador Rogério Marinho (PL), coordenador da pré-campanha, na sistematização do plano de governo e tenta imprimir ao programa algumas das bandeiras que marcaram sua passagem pela Caixa: autonomia financeira das mulheres, inclusão pelo crédito e mobilidade social.
Na economia, porém, ainda busca construir uma identidade própria. Ao rejeitar o rótulo de “Paulo Guedes de saia”, ela diz que seus talentos são complementares aos do ex-ministro. Enquanto Guedes era o formulador da agenda liberal que chegou ao governo em 2019, Daniella se apresenta como alguém de execução: a pessoa capaz de organizar a máquina, negociar com a política e fazer as ideias saírem do papel. Em entrevista ao Globo, antecipou algumas das linhas que pretende levar ao programa. Defendeu uma redução de gastos da ordem de 1,5% do PIB, uma espécie de corresponsabilidade fiscal entre os Poderes, revisão de despesas e melhor gestão dos ativos da União. Para a Caixa, banco que presidiu por cerca de seis meses, reserva um papel diferente daquele defendido por Guedes: não o de uma instituição a ser privatizada, mas o de um instrumento de crédito e inclusão financeira, para que o banco se torne um “Itaú das favelas”, desde que com eficiência e busca por resultado.
Mas Daniella não é apenas a executiva que circula entre planilhas, balanços e gabinetes. Na live de quinta-feira, ao apresentar o Brasil por Elas, ela vestiu o figurino político da base que pretende representar. Mostrou que é fluente na língua do bolsonarismo. Disse que mulheres devem ser reconhecidas como aquelas que engravidam, e não como “pessoas com útero”; afirmou ser contra o que chamou de “ideologia de gênero” nas escolas; defendeu que homens e mulheres não estão em uma disputa, mas exercem papéis “diferentes e complementares”, segundo a Bíblia. Entre a Faria Lima e o eleitorado bolsonarista, Daniella faz as contas de um projeto de país: quanto de técnica, quanto de política e quanto de bolsonarismo cabem na mesma fórmula?
*Colaborou Caio Mello
Voz em movimento
A Tectônica, temporada que ocupa o Instituto Capobianco ao longo de julho, busca fazer da instabilidade um método. O nome vem do rio Anhangabaú, que corre soterrado sob o casarão de 1928 no centro de São Paulo, e virou metáfora para um projeto que reuniu duas trajetórias opostas da dança contemporânea paulista: Beatriz Sano e Cristian Duarte, que já se acompanhavam desde 2009. Enquanto Duarte trata o corpo como um arquivo contaminado por redes, memes e pela memória da dança ocidental, Sano escava o corpo como lugar de ancestralidade, respiração e voz.
É essa segunda linhagem que domina a conversa a seguir. Bailarina formada na Unicamp, Sano constrói uma pesquisa que atravessa o Teatro Nô e as práticas somáticas orientais, sob orientação do professor Toshi Tanaka. Dessa investigação nasceu a convicção que resume seu trabalho: voz é corpo, corpo é voz. E suas peças, como Um Extraordinário Canto Experimental, apresentada na abertura da temporada, em que voz e movimento se entrelaçam de maneira visceral, tornam material essa relação.
Falamos sobre a contradição de fazer uma arte lenta dentro de uma estrutura de mecenato privado, sobre a parceria com Eduardo Fukushima, que também apresenta peças com ela na Tectônica, e sobre o que muda no corpo quando a técnica dá lugar à percepção. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
A Tectônica tem uma proposta fora dos padrões da dança mais comercial no Brasil. Ao mesmo tempo, vocês ocupam um lugar que é fruto do mecenato. Como você lida com essa tensão de fazer uma arte lenta dentro de uma estrutura que ainda é fortemente marcada pelo capital privado?
Quando eu descobri o instituto, também senti um pouco isso. Depois entendi que era um instituto privado e tinha essa programação mais para o teatro. E agora eles estão fazendo essa ação para dança. Mas eu acho que a gente, da dança, das artes, vive nessa tensão. Tem o Itaú Cultural, tem o Centro Cultural da Vale, tem o Instituto Capobianco, são instituições privadas, e isso é contraditório, mas necessário, porque nesse momento os editais públicos estão sendo fortemente atacados, principalmente na cidade de São Paulo. O próprio Fomento da Dança foi divulgado, as pessoas foram selecionadas, mas a verba ainda não caiu.
Vocês usaram o rio Anhangabaú, que está por baixo do instituto, como metáfora para o projeto.
O conceito da Tectônica veio muito do próprio instituto. Mas ele vem muito ao nosso encontro, no sentido dessa instabilidade, desse terreno movediço, onde realmente nada se fixa, a gente está sempre em movimento. Temos esse espaço hoje durante um mês, mas mês que vem já não temos mais nenhum. É a lógica mesmo do nosso mundo, e principalmente da nossa área, de nos desestabilizar, da gente ter chão, da gente também não ter.
Para a residência você trouxe várias peças com Eduardo Fukushima, que é seu parceiro desde que você está aqui em São Paulo. Como vocês se aproximaram e como essa parceria aparece agora na Tectônica?
A gente realmente tá criando junto faz quase 15 anos. Eu conheci o Eduardo junto com uma outra companhia em que eu também atuo, a Key Zetta. A gente estava numa transição de projetos. Desde ali a gente tinha uma conexão muito forte, talvez pelos mesmos interesses. Mas o Eduardo tem uma carreira anterior à minha e tinha essa visibilidade muito grande. A gente tem o mesmo interesse em relação, por exemplo, às práticas asiáticas. Ele foi pra Taiwan estudar. Eu tenho essa pesquisa junto com o Toshi Tanaka, que é um professor que foi da PUC. Consegui ir para o Japão também, estudei mesmo Seitai-ho. E entendemos que as nossas pesquisas tinham muito a ver com essas práticas, e como se entende isso no nosso corpo e se transmite, porque também a gente constantemente vem promovendo residências artísticas pontuais. E também foram coincidindo os próprios interesses em relação à dança.
Você diz que voz é corpo e corpo é voz. Isso é bem diferente da proposição ocidental sobre a integração de corpo e voz no teatro físico, mesmo quando a gente vai para Grotowski ou para Lecoq. Onde está essa especificidade do que você faz, partindo do Seitai-ho e do Nô, que não existe nessas outras tradições?
No teatro, eu comecei fazendo aulas aqui no Brasil com imigrantes. Eles não se consideram profissionais, falam: “Somos amadores e vamos estudar aqui”. E eles também sentem que têm uma certa liberdade na transmissão, o que eu acho diferente de quando você está nas escolas de teatro mais rígidas. E o Teatro Nô, de uma maneira, me abriu pra relação da voz como uma matéria. As indicações que eles me davam tinham um limite da língua, eu entendo muito pouco japonês e eles falam muito pouco em português. E a transmissão é por repetição. Você me fala, eu repito. Mas tem essas indicações: a voz vem de baixo, a voz vem do coração, a voz é forte, não precisa pensar na entonação, nas notas, importante é que seja forte, mesmo que seja desafinado. Tudo isso vai trazendo pra voz uma materialidade, uma matéria tão forte que a gente vai entendendo que você pode produzir voz só quando tudo isso está relacionado. A voz pode vir do pé, da barriga. No Nô, sem o coração, não tinha transmissão. Essa relação com o corpo vai tirando de um lugar tão técnico.
Mas isso se torna técnica, não?
Também existe a técnica, óbvio, ela é um aperfeiçoamento, mas você vai entendendo que cada uma tem a sua voz, você tem que se relacionar com ela, mas ela vem do corpo inteiro mesmo. A relação com a vestimenta também era muito forte. As roupas serem largas ajuda na emissão, você cria uma caixa acústica pra si. Tem amarrações no corpo que também ajudam a fazer com que a emissão seja mais forte.
E ir para o Japão para essa pesquisa foi de alguma forma um resgate da sua linhagem familiar, uma busca de ancestralidade?
Sim. Meus avós paternos e maternos vieram do Japão. Fico achando que a voz realmente é um lugar da ancestralidade, porque depois que fui me aprofundando no Teatro Nô, e pensando na voz como uma matéria que poderia ser coreografada, fui descobrindo coisas familiares. Não foram meus avós, foram meus bisavós: quando eles vieram pro Brasil, rezavam, faziam missas de morte, porque como não tinha pessoas para fazer isso, eles faziam. E na minha família materna tem essa tradição pela meditação, tenho dois tios-avós que cuidaram de templos budistas no interior de São Paulo. Ninguém dava muita importância, ninguém entende muito de Teatro Nô, mas eles foram me falando. Às vezes em festas familiares eu apresento teatro pra eles, porque meu próprio professor falou: “Bia, você tem que apresentar onde você quiser”, principalmente em eventos familiares, porque a voz é pra sua família mais do que pra outras pessoas. Lá no Japão também: a voz vai para fora, mas ela volta pros seus familiares.
Amanhã, é a final da Copa do Mundo. E, nesta semana, nossos leitores se deliciaram com o gol mais lindo nunca visto do insuperável Rei do Futebol. Confira os mais clicados da semana:
1. YouTube: O gol mais lindo nunca visto do Rei Pelé.
2. g1: Produtos brasileiros isentos do tarifaço.
3. Meio: Ponto de Partida — Quem manda no seu dinheiro.
4. Folha: Como foi feito o vídeo do gol do Pelé?
5. Panelinha: Esfriou? Sopa de ervilha é a solução.






























