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Neymar e política: a Copa dos protagonistas errados

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Outro dia eu disse que não gosto de falar “eu avisei”. Tem vez que eu gosto, tem outras que não.

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Hoje tá fácil: eu avisei que, ao levar Neymar pra Copa, Carlo Ancelotti nos deixava reféns, mais uma vez de um Mundial que seria sobre o camisa 10 e não sobre a Seleção. Também avisei que, por ele ser tão vocal politicamente, sua presença seria usada por direita e esquerda pra seguir falando de eleição nesse período.

Estou gostando de ter razão? Não muito, eu preferia que a gente já tivesse sido capaz de superar essa geração Neymar e tivesse chegado à Copa com frescor, nova atitude, novas promessas. Mas, por outro lado, estou feliz de ter visto gente de tudo que é espectro político ter vestido a camisa verde-amarelo pra torcer e de essa era ter exatamente o fim melancólico que ela merecia, pra gente poder virar a página.

Chamam esta Copa de Copa dos Protagonistas. Vozinha é o maior deles, vamos combinar. Mas tem Messi, Mbappé, Harry Kane, Haaland — craques que vêm decidindo jogo pelo talento, no lance certo, na hora certa. É a régua desta edição. E foi nesse contexto que Neymar entrou, no domingo, na eliminação para a Noruega.

Ele conseguiu, sim, o protagonismo. Só que bem a sua maneira. Antes do pênalti, provocou o goleiro Nyland — perguntou onde ele queria a bola, ouviu a resposta, bateu, foi buscar a bola no fundo da rede rindo, voltou pra cima do goleiro: “comigo não, otário”.

Com ele, não. A Copa, o pênalti, o lance, tudo é sobre ele. Não sobre a Seleção e o país que é o único a ter cinco mundiais.

No mesmo jogo, Neymar acertou Odegaard pelas costas numa disputa de bola. Nas duas cenas, ele estava competindo pela atenção que essa Copa reserva a quem decide com a bola no pé. Sobrou só a atitude mesmo de provocação, de afronta. Ele não estava representando ou carregando a seleção. Estava falando de si: do autor do gol de honra, do cara que não leva desaforo.

E os políticos deitaram e rolaram nisso — dos dois lados, e antes mesmo do apito final. Lula já tinha replicado a piada das redes, chamando Neymar de “jogador home office” enquanto o atacante ainda esquentava banco. Nikolas Ferreira reciclou a frase do próprio Lula pra devolver o troco, assim que o jogo contra a Noruega acabou: “quem chamou a responsa pra si foi o jogador home office, tá, Lula?” — e aí mandou o presidente “se ferrar”. Do outro lado, Lindbergh Farias respondeu no mesmo tom, chamando Nikolas de canalha, lembrando que quem escala a seleção é o Ancelotti, não o Palácio do Planalto.

Assim que o Brasil caiu, Flávio Bolsonaro escreveu que desde 2002 — ano em que Lula foi eleito pela primeira vez — o Brasil “nunca mais ganhou nada, nem no futebol nem para os brasileiros”. Eduardo Bolsonaro saiu chamando a provocação de Neymar ao goleiro de prova de “confiança” — o “mais homem, menos politicamente correto” que faltava ao Brasil.

Ó, antes de a gente desfiar aqui a relação da política com a Copa, deixa eu te lembrar que hoje, meia-noite, sai pesquisa nova Meio/Ideia, com os números fresquinhos da corrida presidencial. Assinante premium do Meio recebe a pesquisa antes de todo mundo, meia-noite. E agora ainda tem acesso a uma plataforma exclusiva em que consegue fazer tudo que é cruzamento que quiser dos dados, de maneira interativa. Assine o Meio. São só 15 reais por mês.

Supondo que uma coisa tivesse a ver com a outra, e obviamente não tem, o argumento do Flávio Bolsonaro de que o Brasil não ganha Copa desde que Lula chegou ao poder não resiste a um segundo de reflexão. Em 2022, no Catar, já sob o governo Bolsonaro, o Brasil repetiu a sina, foi eliminado nas quartas de final, pela Croácia, nos pênaltis. Eliminação não tem partido, não.

Tem é falta de atitude, planejamento, trabalho, disposição. Carlo Ancelotti vai ser o cara pra reformular o jeito que os jogadores brasileiros encaram a missão de defender a Seleção? Não sei. A CBF vai ter mais decência e lisura nas suas decisões? Improvável. O que é garantido é que politizar a derrota, ou a vitória, se ela tivesse vindo, nunca serviu a nenhum político brasileiro, tá?

Agora, se algum político quer defender que faltou a arrogância de Neymar desde o começo da Copa, que isso teria feito bem ao Brasil, que faça isso por sua conta e risco. Como boa corintiana, eu até gosto de uma marra em campo. Romário tinha, era divertido. Ronaldinho Gaúcho tinha também, de outro jeito. Neto, o maravilhoso Neto, era e segue sendo marrento e maloqueiro. Sou a favor de jogador malaco, tanto faz a filiação política deles.

Mas tem que ter futebol pra isso. Não adianta ser ex-jogador em atividade, achar que empáfia basta e ainda usar os instantes finais de uma eliminação do Brasil pra transformar a coisa toda num manifesto sobre sua macheza, sua carreira, suas escolhas. Comigo não, otário!

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