Michelle, a mulher mais poderosa do Brasil
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Durante séculos, o conto de Cinderela nos ensinou a desconfiar da madrasta, a mulher que ocupa a casa, toca o terror na ordem familiar, até impedir a enteada de ir ao baile e de experimentar o sapatinho de cristal. O conflito entre Michelle e Flávio Bolsonaro parece reproduzir esse arquétipo com o sinal invertido, ilustrando outro clássico da literatura, agora sobre dinastias políticas: a distinção entre capital político herdado e capital político conquistado.
Michelle Bolsonaro foi uma primeira-dama discreta. Os destaques para a sua presença foram raros, como quando se deixou fotografar com uma camiseta com a frase da juíza da Lava Jato Gabriela Hardt: “Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema”. Ou ao quebrar o protocolo e discursar em libras na posse do marido.
Três longos anos se passaram até Michelle trabalhar ativamente e comemorar ruidosamente a aprovação do terrivelmente evangélico André Mendonça para ser ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Outros sete meses depois, foi convocada a fazer uma oração na convenção nacional do PL, no Maracanãzinho. Decidiu discursar e foi ovacionada, tornando-se importante ativo eleitoral na campanha de reeleição do marido junto ao público evangélico e feminino.
Com a derrota, foi brindada com o cargo de presidente do PL Mulher, num arranjo que abrigou financeiramente os membros da família, incluindo a defesa jurídica pela tentativa de golpe e o pagamento da moradia dos derrotados.
Pela primeira vez nos holofotes, essa mulher evangélica nascida na Ceilândia, periferia de Brasília, mãe de duas meninas, decidiu brilhar muito. Ao longo de mais de três anos, entregou um resultado impressionante no puxadinho que os partidos, sem grande convicção, dedicam às mulheres.
Viajou o Brasil todo para construir uma rede de recrutamento de apoiadoras em igrejas e grupos conservadores. Com isso, atraiu aproximadamente 72 mil novas filiadas, entre mulheres brancas, pretas e pardas, solteiras e casadas, que ajudaram a eleger 1.005 mulheres, sendo 849 vereadoras, 85 vice-prefeitas e 61 prefeitas, na eleição municipal de 2024.
Os próximos passos seriam liderar o maior investimento financeiro em campanhas eleitorais femininas do mundo, segundo palavras do presidente do partido, Valdemar Costa Neto, e, em outro fato inédito, fazer parte de um trio de mulheres senadoras conservadoras de um mesmo partido a ocuparem as três vagas do Distrito Federal. Isso porque Damares Alves, a quem ajudou a se eleger em 2022, já está no cargo e a sua própria eleição e a de Bia Kicis são dadas como barbadas. Mesmo que a três meses da eleição Michelle tenha perdido cargo, salário e esteja ameaçada de ficar sem legenda para a disputa após a briga pública com Flávio, o filho mais velho do marido escolhido para ser seu sucessor.
Na nova pesquisa Meio/Ideia de julho de 2026, Michelle é espontaneamente percebida por 15,4% do eleitorado como a mulher mais poderosa do Brasil. Um resultado nada trivial. No contexto eleitoral, continuará detentora de um discurso e de uma posição nada desprezíveis em uma campanha presidencial que deve ser disputada voto a voto.
Aprofundando os números do levantamento Meio/Ideia, em que pese não ser a candidata, Michelle disputa ponto a ponto com Flávio, o escolhido, o espólio de Jair. Ainda que não seja a candidata, fica abaixo numericamente do enteado mas empata na margem de erro com Flávio. No primeiro cenário do primeiro turno, Flávio tem 32% das intenções de voto. No segundo cenário do primeiro turno, quando o nome de Michelle é testado em substituição a Flávio, a ex-primeira-dama tem 29,4%. Nos cenários de segundo turno contra Lula, Flávio aparece com 40% e Michelle, 36%. Os números flertam com o empate estatístico.
Outro desafio de Flávio, no público feminino, pergunta espontânea, Lula tem 37,4% contra 17,2% de Flávio. Na estimulada, a distância fica mais evidente: Lula chega a 45,6% entre as mulheres contra 25,5% de Flávio. Entre os homens, Lula e Flávio estão separados por 4,3p.p.: 34,7% a 39%. Ou seja, se a eleição fosse decidida apenas pelos homens, teríamos um cenário de empate, o que não se reproduz quando olhamos os dados do eleitorado feminino que, diga-se, é maioria. Na pergunta de resposta múltipla sobre a rejeição — fundamental neste ciclo em que ambos têm resistências importantes: Flávio é o mais rejeitado pelas mulheres com 49% das respostas, contra 40,4% de Lula.
Até aqui, apenas 33,5% do eleitorado ficou sabendo e acompanhou o vídeo em que Michelle diz que o enteado a humilhou e maltratou, 24,1% ouviram falar e 25,2% não ficaram sabendo. Destes 57,7% que acompanharam ou ouviram falar sobre o vídeo, 29% consideram ser totalmente verdade o que disse a madrasta. Em outra pergunta, 60,6% do eleitorado discorda totalmente ou parcialmente da fala do apoiador de Flávio, Paulo Figueiredo, de que “mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente as mulheres solteiras”.
Diante desses dados, resta saber qual carruagem se tornará abóbora nos próximos meses, se a da madrasta Michelle escolhida espontaneamente como a mulher mais poderosa do Brasil, ou a do enteado, que sem muita campanha ou plano de governo já herdou os 20,3% dos votos do pai na pergunta espontânea. Ou, num desfecho de contos de fada, se viverão todos felizes para sempre.


