A razão leonina de Trump

Folarin Balogun pisou no tornozelo de Tarik Muharemović, recebeu cartão vermelho direto e deveria cumprir suspensão automática na partida seguinte dos Estados Unidos na Copa do Mundo. Era um caso banal de disciplina esportiva até Donald Trump telefonar para Gianni Infantino, pedir a revisão do lance e depois se gabar da intervenção com a mesma pompa com que anuncia invasões, bombardeios ou tarifas. A Fifa suspendeu por um ano a execução da pena, liberou Balogun para enfrentar a Bélgica e provocou protestos da federação belga, da Uefa e do mundo do futebol.
A fresta na palavra sagrada

“Eu não vou melhorar nada no sentido do que a Bíblia diz, porque a Bíblia é inerrante, e eu acredito totalmente nela. Então, sim, a palavra que se refere à submissão feminina é real, é atual, e protege a mulher se for lida de forma completa. [...] Até quando nós vamos pregar a submissão feminina sem falar do heroísmo masculino? Porque é mais ou menos como dizer para um homem assim: assuma, vá à frente, me proteja, me ajude. Eu confio a liderança a você. É mais ou menos isso, inicialmente, um tipo de submissão que faz sentido. [...] Então, se isso não for explicado, vai dar a entender que a mulher tem que ser submissa a um delinquente, submissa a um abusador, submissa a um violento.”
As duas tradições inventadas de 2026
Toda sociedade que fabrica poder fabrica também uma história sobre a origem desse poder. E um produto desta dinâmica é uma espécie de genealogia que faz o presente parecer consequência natural de um passado mais largo do que ele de fato foi. Eric Hobsbawm chamou isso de tradição inventada, ao observar como nações e movimentos recentes se vestiam, em sua época, com símbolos emprestados de uma continuidade que não tiveram, ou de um passado de que mal se lembram.
Trump, Lula e a eleição brasileira
A eleição presidencial brasileira de 2026 é geralmente apresentada como o próximo capítulo da onda conservadora que atravessa o continente americano sob a sombra de Donald Trump. A interpretação é plausível, mas incompleta. Ela exagera o peso da influência norte-americana, subestima a lógica tradicional de alternância entre esquerda e direita que caracteriza as democracias latino-americanas e ignora a principal singularidade do caso brasileiro: a presença de Lula, o maior líder político da história contemporânea da região.
Com quantas vítimas se faz um país?
O ditado pergunta com quantos paus se faz uma canoa. A política brasileira parece hoje perguntar com quantos tipos de vítima se faz um país. Vítimas do patriarcado, do racismo, das plataformas, do mercado, da mídia, do STF, do politicamente correto, das elites, das minorias, das maiorias ou simplesmente “do sistema”: boa parte da vida pública passou a se organizar como disputa para decidir quem tem o direito de reivindicar a condição de vítima e quem deve ocupar o lugar moralmente degradado de privilegiado, opressor ou perpetrador.
O agro e a política

Os agronegócios brasileiros apresentam uma diversidade social e um dinamismo político que tendem a ser ofuscados pela tendência a considerá-los um conjunto homogêneo e com posicionamentos estáticos. Esta visão, que se cristalizou em particular nas últimas décadas de polarização em torno de temas políticos, ambientais e culturais, apresenta uma imagem do “agro” que oculta mudanças profundas que alteraram a composição econômica, social e política dos agronegócios no Brasil e que se abrem potencialmente para uma diversidade de posicionamentos em torno de políticas públicas.
O teste de Messias

A reapresentação do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não é um ato de teimosia. É um teste. O que o Presidente da República parece querer medir, ao insistir num nome já rejeitado pelo Senado, não é a disposição de Davi Alcolumbre em recuar — é o grau de engajamento real de sua própria base em uma causa identificada com sua figura. Essa hipótese, mais do que qualquer outra, organiza o comportamento político de Lula nas últimas semanas e oferece a chave de leitura mais precisa para o momento atual.
A universidade dividida
A universidade pública brasileira virou objeto de uma disputa sobre a própria reputação. De um lado, cresce na opinião pública a percepção de que ela teria deixado de ser um espaço de ciência para se tornar trincheira ideológica — percepção alimentada por uma sucessão de episódios nos campi: eventos cancelados, aulas interrompidas, abaixo-assinados e campanhas de denúncia contra professores e estudantes, alguns chegando à agressão física. De outro, contesta-se que esse retrato corresponda à realidade de instituições que seguem produzindo ciência e formação de excelência. A percepção pode ser, em boa parte, distorcida; mas se apoia num problema real, a dificuldade de sustentar a convivência entre posições divergentes — e é desse problema, mais do que dos números que tentam medi-lo, que trata a polêmica recente.
Deus nos proteja da maldade política de gente boa
O leitor deve ter notado como, ultimamente, nas discussões sobre a vida pública, o vocabulário moral tem substituído a terminologia peculiar da política. Mesmo que as caracterizações do outro lado pareçam políticas, como quando se diz que não se deve votar “neles” por serem comunistas ou fascistas, porque são da extrema direita ou da esquerda, na verdade os termos não mantêm o seu significado tradicional. “Fascista”, por exemplo, não passa de um atalho verbal para remeter a tudo o que eu, progressista, moralmente reprovo, a qualquer ideia ou posição que considero eticamente deplorável.
O dilema do governo minoritário
O mês de abril terminou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofrendo as duas mais sérias derrotas em seus três mandatos no Planalto. No dia 29, o plenário do Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias, homem de confiança do presidente, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) — algo que não acontecia desde 1894. No dia seguinte, o Congresso derrubou, por ampla maioria, o veto presidencial à Lei da Dosimetria, que reduziu as penas dos condenados por atos contra a democracia.