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A razão leonina de Trump

Foto: Saul Loeb/AFP
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Da interferência numa partida de futebol às tarifas, guerras e humilhações diplomáticas, ele decide primeiro o resultado e inventa depois a justificativa

Folarin Balogun pisou no tornozelo de Tarik Muharemović, recebeu cartão vermelho direto e deveria cumprir suspensão automática na partida seguinte dos Estados Unidos na Copa do Mundo. Era um caso banal de disciplina esportiva até Donald Trump telefonar para Gianni Infantino, pedir a revisão do lance e depois se gabar da intervenção com a mesma pompa com que anuncia invasões, bombardeios ou tarifas. A Fifa suspendeu por um ano a execução da pena, liberou Balogun para enfrentar a Bélgica e provocou protestos da federação belga, da Uefa e do mundo do futebol.

O episódio parece uma curiosidade da Copa ou um ato de tiranete de comédia, mas expõe em miniatura um método. Havia uma regra, autoridades competentes e uma decisão desfavorável à seleção americana, não ao país. Trump passou por cima de tudo, obteve a exceção e exibiu sua intervenção como correção de uma injustiça. É assim que prefere figurar no mundo: não como alguém submetido às regras, mas como a autoridade superior capaz de revê-las. Mesmo num reles jogo de bola.

Os brasileiros conhecem uma versão muito mais grave desse procedimento. Em 2025, Trump impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros e vinculou explicitamente a medida ao processo contra Jair Bolsonaro, que chamou de “caça às bruxas”, usando a pressão econômica para constranger o Supremo e proteger um aliado. Derrubada essa modalidade de tarifa pela Suprema Corte americana, seu governo propôs, em 2026, nova sobretaxa de 25%, agora amparada em justificativas comerciais, ambientais e digitais. Essas justificações bailarinas, que mudam ao sabor das circunstâncias, pertencem ao mesmo repertório da invasão da Venezuela e das humilhações públicas impostas a Volodymyr Zelensky e Cyril Ramaphosa. Não são episódios desconexos, mas variações de um mesmo método aplicado a aliados, adversários, universidades, empresas, organizações internacionais e governos estrangeiros.

Trump não parte de uma regra para chegar a uma conclusão. Ele parte do resultado que pretende impor e procura depois a razão que o faça parecer necessário. Mobiliza ou fabrica uma justificativa retrospectiva, incapaz de limitar sua decisão, e explora uma vulnerabilidade já existente — a necessidade de acesso ao mercado americano, proteção militar, financiamento ou reconhecimento diplomático. A superioridade material dos Estados Unidos converte-se, assim, em direito de ditar condições. Trump impõe um custo ou torna crível a ameaça de impô-lo e oferece sua retirada como concessão pessoal, exigindo em troca recursos, alinhamento, mudanças institucionais, lealdade ou silêncio.

Sempre que possível, transforma a capitulação em espetáculo: não basta que o outro ceda; é preciso que pareça reconhecer publicamente quem o obrigou a ceder. Se uma justificativa deixa de convencer, outra ocupa seu lugar; o fundamento muda, mas a conclusão permanece.

É isso que chamo de razão leonina. Como o leão da fábula, que se apropria de toda a presa de uma caçada coletiva e inventa uma razão diferente para ficar com cada parte, Trump não deriva a decisão de um princípio; produz princípios ocasionais para justificar a decisão. As razões são fabricadas para dar ares de justiça ao resultado já escolhido. No método trumpista, a força determina o desfecho e a argumentação vem depois, para vender o que é a mera vontade do mais poderoso como consequência inevitável dos fatos — para conferir alguma aparência de decência ao que é simplesmente arbítrio.

A bibliografia recente de relações internacionais mostra que não se trata apenas de uma coleção de excentricidades.
Em artigo que acaba de ser publicado na revista Middle East Policy, intitulado “Trump’s Transactional Diplomacy: Breakthrough or Breakdown?”, Guilain Denoeux e Robert Springborg propõem uma avaliação relativamente equilibrada da diplomacia transacional. Em vez de tratá-la como simples idiossincrasia de Trump, eles a situam numa transformação mais ampla da política internacional, marcada pelo enfraquecimento das instituições multilaterais, pela ascensão de regimes autoritários, pela substituição de alianças estáveis por estratégias mais flexíveis e pela preferência por resultados imediatos e mensuráveis. Nesse modelo, a política externa deixa de se organizar prioritariamente por valores, compromissos duradouros e regras gerais e passa a operar como uma sucessão de negócios bilaterais entre dirigentes. Trump não teria inventado essa lógica, mas a tornou mais explícita ao reduzir relações estratégicas a trocas materiais, como proteção em troca de armas, investimentos, empregos e dinheiro.

Esse método pode ser rápido e eficaz. Negociações entre poucos líderes dispensam parte da lentidão da diplomacia profissional e podem produzir acordos que mecanismos tradicionais não alcançam. Os casos da Síria pós-Assad e de Gaza, contudo, revelam o preço dessa agilidade. Na Síria, Washington obteve promessas de cooperação, alinhamento e estabilidade a baixo custo, mas relegou a segundo plano a democracia, os direitos das minorias e a justiça de transição. Em Gaza, houve ganhos táticos, como cessar-fogo parcial e troca de reféns e prisioneiros, mas os palestinos foram praticamente excluídos da formulação do acordo, enquanto Israel conservou vantagens decisivas. A diplomacia transacional, assim, tende a reproduzir a correlação de forças e a favorecer o lado mais poderoso, sobretudo quando não existem garantias capazes de obrigá-lo a cumprir o que foi pactuado.

O caso iraniano torna esse limite ainda mais evidente: as conversas entre Washington e Teerã nem sequer constituíram uma verdadeira transação, porque os Estados Unidos apresentaram exigências maximalistas sem oferecer concessões equivalentes. Tratava-se menos de negociação do que de ultimato, e as reuniões acabaram servindo de cobertura e preparação para o ataque. Ao longo da guerra, os objetivos declarados também se deslocaram, indicando que as justificações acompanhavam decisões já tomadas, em vez de orientá-las. No método trumpista, portanto, a razão não determina o resultado; o resultado escolhido define qual razão será mobilizada e quando poderá ser substituída por outra. A principal fragilidade dessa diplomacia está justamente aí: personalização, improvisação, ausência de autocrítica e rapidez na execução de decisões cujos fins permanecem mal definidos ou insuficientemente examinados.

Em The Myth of Trump’s Transactional Foreign Policy — and Canada’s Response, publicado em 2025, Robert Snyder sustenta que, no segundo mandato, a política externa de Trump deixou de ser apenas transacional e passou a operar segundo uma lógica de vassalagem. A diplomacia transacional, em sentido estrito, privilegia relações bilaterais, ganhos imediatos, cálculos de soma zero, indiferença a valores e ausência de compromissos estratégicos duradouros. Mas as tarifas de Trump nem sempre obedecem a essa racionalidade: são justificadas ora como instrumento permanente de reindustrialização, ora como ameaça provisória para obter acordos; atingem países com os quais os Estados Unidos mantêm superávit ou poucas barreiras comerciais; e se apoiam, em certos casos, em pretextos frágeis, como o fentanil vindo do Canadá. A persistência das tarifas, mesmo quando prejudicam consumidores americanos, sugere que seu objetivo não é apenas econômico.

Para Snyder, elas funcionam sobretudo como instrumentos de submissão. Governos estrangeiros são constrangidos a ir a Washington, pedir exceções, elogiar Trump e aceitar que ele fixe unilateralmente os termos da relação. O acordo material importa, mas importa também — e, às vezes, mais — a cena política em que o outro reconhece sua dependência e a superioridade de quem pode puni-lo ou poupá-lo. Daí a comparação com o antigo sistema centrado na China imperial: emissários estrangeiros compareciam à corte, prestavam deferência ao imperador e, em troca, obtinham acesso ao comércio. Não é negociação, mas um ritual de reconhecimento hierárquico.

Essa lógica se estende à política interna e ajuda também a explicar por que Trump não se ajusta bem ao realismo clássico. Escritórios de advocacia, universidades, empresas e veículos de comunicação são ameaçados até demonstrarem lealdade ou pedirem indulgência ao presidente. Ao mesmo tempo, Trump subordina interesses estratégicos do Estado à sua necessidade pessoal de reconhecimento, hostiliza aliados, favorece autocratas e enfraquece coalizões importantes para conter rivais como a China. A diferença decisiva, portanto, não está apenas entre cooperação e conflito, mas entre troca e deferência compulsória: numa transação, ambas as partes conservam alguma capacidade de barganha; numa relação de vassalagem, o mais forte explora a dependência do outro e exige que ela seja publicamente reconhecida.

Ville Sinkkonen já havia identificado esse padrão no primeiro mandato em Contextualizing the “Trump Doctrine”: Realism, Transactionalism and the Civilizational Agenda, publicado em 2018. Para ele, a “doutrina Trump” combina rejeição do internacionalismo liberal, linguagem civilizacional herdada do neoconservadorismo, uma concepção materialista e competitiva do poder próxima do realismo e uma mentalidade transacional por vezes confundida com isolacionismo. O resultado é um “realismo transacional com conotações civilizacionais”: relações bilaterais, episódicas e orientadas por ganhos imediatos, nas quais cada concessão deve produzir retorno identificável e o êxito depende menos de benefícios compartilhados do que da certeza de que os Estados Unidos ganharam mais do que a outra parte.

Como o acordo também precisa ser apresentado como triunfo pessoal de Trump, a política externa passa a obedecer às exigências dramatúrgicas do líder: importa não apenas obter uma vantagem, mas encenar que o outro foi obrigado a ceder e exibir-se como vencedor.

O núcleo mais fecundo do argumento é a distinção entre poder como posse de recursos e poder como relação social. Trump tende a identificar poder com armas, dinheiro, acesso a mercados e capacidade de impor tarifas, sanções ou força militar. Mas recursos coercitivos não garantem influência duradoura, que depende também de legitimidade, confiança, reputação, normas compartilhadas e disposição voluntária para cooperar. Ao confundir coerção com autoridade, Trump transforma ameaças e punições em respostas quase universais: pode obter obediência imediata, mas enfraquece a cooperação espontânea e torna cada nova relação mais custosa. Daí sua formulação segundo a qual um poder que perde legitimidade precisa sustentar-se por um “regime de ameaças críveis”, renovando continuamente a demonstração de que pode punir.

Essa interpretação aprofunda a ideia de razão leonina. A força nua pode impor uma conduta, mas não legitima a decisão; por isso, o exercício predatório do poder precisa ser acompanhado de razões que apresentem a coerção como necessária ou justa. Como essas justificações são produzidas depois da decisão, permanecem frágeis e intercambiáveis.

Sinkkonen também mostra por que Trump não corresponde ao realismo clássico. O realismo exige prudência, cálculo das consequências, consciência dos limites do poder e subordinação dos impulsos pessoais ao interesse do Estado. Trump retém a ênfase na força, na competição e nos ganhos relativos, mas abandona essa disciplina: sua política é personalista, improvisada, orientada por triunfos visíveis e incapaz de submeter a vitória imediata a uma estratégia coerente de longo prazo.

Os episódios recentes ilustram esse diagnóstico. As humilhações públicas de Volodymyr Zelensky e Cyril Ramaphosa tornam visível uma dimensão que a expressão “diplomacia transacional” tende a ocultar: no Salão Oval, Zelensky foi acusado diante das câmeras de ingratidão e desrespeito e dispensado sem assinar o acordo sobre minerais; Ramaphosa, por sua vez, foi surpreendido com um vídeo e imagens usados para sustentar a falsa acusação de “genocídio branco” e obrigado a se defender perante a imprensa. Essas cenas não são apenas manifestações de narcisismo, mas instrumentos estratégicos: uma concessão reservada resolve um conflito, enquanto uma capitulação pública adverte os próximos interlocutores, exibe o custo da resistência, recompensa a deferência e apresenta a clemência como favor pessoal de Trump.

A razão leonina não significa que Trump dispense justificações para o que faz ou exige. Significa o contrário: ele produz muitas, sucessivas e intercambiáveis. A perseguição a Bolsonaro pode ceder lugar às barreiras digitais e ao desmatamento; o combate ao narcotráfico pode conviver com a apropriação do petróleo venezuelano; a não proliferação nuclear pode ampliar-se até abranger a reorganização política do Oriente Médio. Cada razão explica uma parte da ação, mas nenhuma limita o direito do mais forte de escolher a próxima justificativa conforme a sua conveniência.


*Wilson Gomes é doutor em filosofia, professor titular da Universidade Federal da Bahia e autor de "Crônica de uma Tragédia Anunciada".

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