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As duas tradições inventadas de 2026

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Bolsonarismo e lulopetismo tentam emplacar suas versões sobre seus respectivos passados sem explicar como querem se manter no futuro

Toda sociedade que fabrica poder fabrica também uma história sobre a origem desse poder. E um produto desta dinâmica é uma espécie de genealogia que faz o presente parecer consequência natural de um passado mais largo do que ele de fato foi. Eric Hobsbawm chamou isso de tradição inventada, ao observar como nações e movimentos recentes se vestiam, em sua época, com símbolos emprestados de uma continuidade que não tiveram, ou de um passado de que mal se lembram.

O Brasil de 2026, nosso objeto de análise, está fabricando duas dessas tradições ao mesmo tempo, uma em cada lado da polarização: o lulopetismo – mais longevo no tempo – e o bolsonarismo – fenômeno de história recente. E cada um deles, a seu modo, enfrenta o dilema de colocar o outro em uma determinado espaço do imaginário coletivo, ao mesmo tempo em que reserva para si a condição de receptáculo de uma série de desejos e convicções nascidas em algum lugar do passado e projetadas em outubro deste ano.

A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 29 de junho mostra que, por ora, nenhuma das duas está vencendo a disputa pelo relato dominante. Lula aparece com 47% das intenções de voto no segundo turno simulado, Flávio Bolsonaro com 44% — tecnicamente empatados, dentro da margem de erro de dois pontos. O número, isolado, diz pouco. O que ele revela de interessante é que a genealogia que cada campo constrói sobre si mesmo ainda não convenceu o eleitor que mais importa: aquele que vai de fato às urnas e não se sente afetivamente vinculado a nenhum dos dois antagonistas.

Duas semanas antes, Lula tinha seis pontos de vantagem — a primeira vez na série histórica da pesquisa em que os dois não apareciam tecnicamente empatados. A recuperação de Flávio ocorreu na mesma semana em que a operação da Polícia Federal contra o senador Jaques Wagner e o episódio envolvendo Michelle Bolsonaro dominaram o noticiário. Dois eventos que, em tese, deveriam ter produzido efeitos simétricos e opostos. Não produziram. A rejeição a Flávio recuou de 52% para 51% no período de campo, entre 26 e 28 de junho; a rejeição a Lula voltou a subir, para 49%.

Isso já diz algo sobre qual das duas tradições inventadas se colocam no campo.

O bolsonarismo, de momento, consegue absorver um escândalo familiar sem custo eleitoral relevante. O lulopetismo, por sua vez, continua refém de uma memória afetiva específica, a da corrupção, que qualquer evento adjacente reativa, mesmo quando o presidente não está diretamente envolvido.

Há um dado ainda mais revelador: entre os eleitores que declaram ter votado nas duas últimas eleições presidenciais, 2018 e 2022, a vantagem de Lula cai para um ponto percentual. Como a abstenção historicamente gira acima de 20%, esse cruzamento sugere que quem efetivamente comparece às urnas é mais hostil ao incumbente do que a amostra total indica — e que o resultado de outubro será decidido por um terço do eleitorado que ainda não tem vínculo afetivo com nenhum dos dois movimentos.

É para esse terço sem vínculo que as duas tradições inventadas deveriam trabalhar. Diante da importância dos indecisos, há a necessidade de conquistar corações e mentes — na expressão que a diplomacia americana consagrou para esse tipo de disputa. Vale aqui recuperar um clássico da reflexão política nacional. João Ubaldo Ribeiro tinha uma formulação que cabe perfeitamente neste momento: não basta saber quem manda, é preciso entender por que manda e como manda, porque o como costuma trair o porquê.

O bolsonarismo está, neste momento, fabricando seu como. Para além das querelas familiares, a vida segue, e há o desafio de mostrar o que se pretende fazer com o poder. Nesse esforço, a carta enviada por Marco Rubio a Flávio Bolsonaro em 23 de junho cumpre uma função precisa: sancionar, perante a própria base do movimento, uma linha de sucessão entre o projeto de 2018 e a candidatura de 2026 — agora com o selo de um interlocutor privilegiado em Washington.

O trecho em que Rubio registra a oferta de Flávio de disponibilizar uma equipe de transição aos americanos, caso seja eleito, não por acaso foi amplamente repercutido em Brasília. Não é um assunto do campo diplomático. Mas, sim, tentativa de construir genealogia: transforma uma candidatura em curso em herdeira legítima de algo que supostamente já vinha de antes dela, transferindo o legado do pai para o filho via chancela de uma referência política e ideológica externa. Os dados da pesquisa sugerem que esse componente externo, ao menos por ora, se sobrepõe aos elementos de querela familiar — representados pelo atrito entre Michelle e os filhos de Jair Bolsonaro.

O lulopetismo, por sua vez, tenta o movimento inverso: fabricar continuidade onde também há ruptura. Apresentar o terceiro mandato como mera extensão linear dos dois primeiros exige ignorar de maneira proposital o interregno do governo Dilma Rousseff e os impactos das crises éticas que, a partir de 2013, geraram dano reputacional duradouro ao partido e uma resistência afetiva que parte do eleitorado carrega até hoje. Nesse sentido, a saída de Jaques Wagner da liderança do governo no Senado, anunciada em 24 de junho após reunião com Lula no Palácio da Alvorada, não foi decisão voluntária. Foi uma capitulação negociada — diante do risco de que as declarações públicas do senador sobre as investigações do Banco Master arrastassem o próprio presidente para o centro da crise.

O problema é que a solução cria outro problema, e este é exatamente o tipo de contradição que João Ubaldo identificaria como sintoma de quem manda sem necessariamente saber como vai continuar mandando. O senador baiano foi, por anos, o principal interlocutor do Planalto numa casa legislativa hostil. Sua sucessora, a senadora Teresa Leitão, reduz risco reputacional, mas não chega com capacidade de articulação equivalente — justamente quando pautas estratégicas precisam avançar antes do recesso legislativo e do início do defeso eleitoral, em 4 de julho.

Soma-se a isso uma frente que escapa ao controle de qualquer narrativa que se queira construir: a instabilidade internacional, hoje materializada no Estreito de Ormuz, mantém o petróleo em patamar elevado, com transmissão direta sobre combustíveis e fertilizantes — dois canais que alcançam ao mesmo tempo o consumidor urbano e o agronegócio. Para um governo cuja aprovação está estabilizada em 48%, depois de subir de 45% em março sem avançar além disso, a inflação importada é o tipo de risco que nenhuma genealogia bem contada consegue neutralizar. Para a oposição, a maneira errática com que a administração americana se manifesta em relação ao continente constitui risco não marginal, diante de um eleitorado majoritariamente avesso a qualquer dinâmica de intervencionismo estrangeiro.

O que essas três frentes têm em comum é que todas testam, ao mesmo tempo, a pergunta de João Ubaldo e a tese de Hobsbawm: testam se quem manda ainda sabe como vai continuar mandando, e testam se a tradição que cada lado fabrica resiste ao contato com fatos que ela não escolheu. Tradição inventada funciona enquanto ninguém checa a genealogia de perto. Funciona menos quando o episódio que a desafia chega pela Polícia Federal, por um vídeo, por uma carta diplomática ou por uma cotação de petróleo — eventos que nenhum dos dois lados controla, mas que ambos são obrigados a incorporar ao próprio relato, sob pena de perder relevância.

Por isso, ao mesmo tempo em que o Planalto se esforça para transformar a carta de Rubio em argumento eleitoral próprio — via tese de defesa da soberania —, a oposição parece compreender que a disputa pelo presente tem um componente de futuro que envolve aceitar algumas verdades incômodas, como a hegemonia americana, e que de momento não há espaço de ação mais eficaz do que a proximidade ideológica e pessoal entre o grupo e os mandatários em Washington. O dilema, para os dois lados, é que esses movimentos de leitura do presente projetada no futuro demandam um nível de coesão interna que parece bastante precário — seja pelos dilemas que assombram ambos do ponto de vista ético, seja pela dificuldade que a contestação interna de liderança impõe, hoje mais presente no bolsonarismo.

Os números da BTG/Nexus mostram, no fim das contas, um empate técnico entre dois projetos que, ao pregarem algum tipo de continuidade, seguem sendo ineficazes em convencer o pedaço do eleitorado afetivamente deslocado de ambos. Hobsbawm explicaria essa ineficácia pela fragilidade intrínseca de toda tradição inventada: ela convence quem já quer ser convencido, mas tropeça diante de quem não tem vínculo afetivo prévio com a genealogia que se conta. João Ubaldo acrescentaria a pergunta que falta — de pouco adianta saber, hoje, quem manda, se nenhum dos dois lados consegue ainda demonstrar como pretende continuar mandando.

Enquanto essa resposta não aparece, o risco é que se aprofunde a crise de representação em que o país já está mergulhado. E que a eleição de outubro seja decidida não pela tradição mais convincente, mas pela rejeição menos intensa.


*Colunista do Central Meio e do Meio Político, o mestre em Relações Internacionais Creomar de Souza é sócio fundador da Consultoria de Análise de Risco Político Dharma e professor da Fundação Dom Cabral.

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