O Meio utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência. Ao navegar você concorda com tais termos. Saiba mais.
Assine para ter acesso básico ao site e receber a News do Meio.

Flávio perdeu as mulheres

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail

Assine agora. É grátis.

A gente descobriu uma coisa, nesta sétima edição da pesquisa Meio/Ideia, que nenhuma pesquisa tinha deixado claro até aqui. A base bolsonarista está se dissolvendo. Deixa eu botar um alerta, pra ser claro a respeito do que estou dizendo. Não é que a candidatura de Flávio Bolsonaro está condenada e ele não tem chances de vencer. Não é, tampouco, que o bolsonarismo esteja morto. A questão é que o radicalismo de direita está morrendo na sociedade, e está morrendo por caminhos diferentes. Está morrendo pela periferia urbana, está morrendo pelo voto evangélico e, sim, está morrendo pelo voto feminino conservador.

PUBLICIDADE

Essa não é a história que você está habituado a ouvir, bem, não é a história que a gente está habituado a contar. Então deixa eu começar apresentando a vocês o brasileiro num gráfico de pizza. Temos aqui os 36% que nos disseram que querem Lula presidente da República, que isto é o melhor que pode acontecer para o Brasil. Veja, este não é o número de pessoas que dizem que vão votar em Lula. Tem mais gente que decidiu votar no presidente Lula, é só que alguns não acham, necessariamente, que o melhor para o Brasil é sua eleição. Estes 36%, não, para eles, Lula é o cara.

Aí temos 25%, um quarto dos brasileiros, que consideram que o melhor que pode acontecer no Brasil é alguém da família Bolsonaro se eleger.

O que sobra? Sobram outros 36% dos brasileiros que realmente queriam uma alternativa. Pois é. Aí você abre a nossa pesquisa, a Meio/Ideia, olha pra ela, olha pra Quaest, pra Atlas, pro Datafolha, pro Ipespe, pra Nexus, pra Ipec-Ipsos, vai olhando de pesquisa em pesquisa, se vira e diz, isso não faz sentido. Todos os outros candidatos estão espremidos ali, ninguém consegue botar o pescoço pra fora, como poder ter mais de um terço dos brasileiros dizendo que o melhor pro Brasil é que não dê nem Lula, nem Bolsonaro?

Vamos olhar pra essa turma. Primeira coisa, quão ligado você está na eleição? Tipo, na boa. A eleição mexe com você ou só mexe com os outros? Porque a turma do Lula, a turma do Flávio, está atenta, tem convicções, tem uma ideia de Brasil na cabeça? E estes que querem uma alternativa?

Bem, eles se dividem. Se dividem exatamente ao meio. Metade prum lado, metade pro outro. 18%, 18%. Uma metade, sabe como é. Tem Copa do Mundo, tem Tigrinho, tem o baile no fim de semana, o culto domingo, boleto no fim do mês, pega ônibus de manhã, pega moto, Flamengo e Corinthians, a vida é dura, política é chato pra cacete. Quem tem tempo? Pois é. Quem tem? Quem tem é quem escolhe. A outra metade não é assim, não. Os outros 18% não se desconectaram, estes sim estão preocupados, pensando. Queriam outro, outra. E até dava, né?

Vamos mergulhar nessa turma. Como eles se dividem, os 18% que querem outra pessoa na presidência e estão ligadas na eleição? Novamente, em dois grupos. De um lado, dois e meio por centro. Querem a ruptura. Alguém completamente diferente. Precisa chacoalhar o sistema porque, do jeito que está, não tem como. É, pode ser. Mas é só dois e meio por cento. Na outra ponta, 15,5%. Querem um candidato moderado. São pessoas cansadas, procuram mudança, e dá uma certa sensação de que o jogo é de cartas marcadas. Não é?

A gente vai mergulhando e mergulhando nesses números e, às vezes, a sensação é de que dá para quase ver a cara desses brasileiros que querem algo completamente diferente, mas que ao mesmo tempo não é radical.

São homens. 60% deste grupo, homens. Classe C ali no topo, querendo botar o pé na Classe B. A turma que melhorou de vida na primeira década do século e aí estancou, quer crescer, não vê por onde. São mais evangélicos que a média do Brasil — um em cada três, deles. Metade são católicos. Gente religiosa, sabe? 40% deles vivem no Sudeste, 25% no Nordeste, e 20% no Sul. Periferia urbana. É a turma do corre. Ensino Médio. Ninguém está aí à toa na vida. E, olha, são majoritariamente conservadores. Pessoas de direita. Votaram em Bolsonaro até a última vez, em 2022, sabe? Não querem mais. Mesmo.

Votaram em Bolsonaro? É, a história desse pessoal é complicada. Mas explica muito do Brasil de hoje. E talvez você esteja surpreso, porque já antecipei três informações. O radicalismo está morrendo pela periferia urbana, morrendo pelo voto evangélico e, claro, pelo voto feminino conservador. Essa turma aí são homens? Onde estão essas mulheres. Vem que a pesquisa tem bem mais história pra contar. Vem comigo pra eu fechar a explicação.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Com muita frequência, a gente lê sobre política pelas histórias dos políticos. O que decidem, o que prometem, como atuam. Não é? Ou, então, a gente vai um pouco além e traz os intelectuais, os pensadores. Os livros. Mas, numa democracia, política é sobre a sociedade. Sobre o que o povo pensa, sobre o que dá medo, o que embala o sonho das pessoas.

A gente faz, todo mês, uma pesquisa. Pesquisa de opinião não é só gráfico, não é só numeralha. É o jeito que temos de mergulhar dentro do Brasil e sentir o pulso das pessoas. Então, sim, a gente oferece pros assinantes do Meio todos os gráficos, todos os números, todo mês. E mais do que isso. Pusemos no ar uma plataforma que permite a cada assinante mergulhar dentro desses números, quem é homem e quem é mulher, qual a idade, a renda, a educação, a geografia. E a gente ajuda a ler. Porque ler esses números é olhar cada brasileiro no olho. Entender onde doi.

Sabe, é isso que executivo de grande empresa tem, dono de banco. É isso que presidente de partido e candidato majoritário tem. Pesquisa no detalhe, exclusiva, em cima da mesa. E palestra de quem lê pesquisa para ajudar a compreender. Nunca, na história das eleições brasileiras, esse tipo de serviço, de análise, esteve à disposição do eleitor.

Assine o Meio. Não pela esquerda, não pela direita. Olhar o Brasil como ele é. Vem conhecer o país com a gente.

E este aqui? Este é o Ponto de Partida.

64% deste grupo que quer outro, e quer que seja moderado, nos disseram que votaram em Bolsonaro na eleição passada. Para vocês terem uma ideia, em toda a amostra, 37% lembram de ter votado em Bolsonaro. Esse pessoal é quase o dobro. São homens, periféricos, religiosos, sentindo que estão a um passo de ascender socialmente e não conseguem, votaram em Bolsonaro. Não querem mais.

Se você pensa num homem religioso periférico como um alienado, um camarada que fica no Zap, esquece. 40% deles se informam por sites de notícia. A média brasileira é 29%. 39% usam o YouTube, a média nacional é 26%. YouTube é o que nós jornalistas chamamos de long-form, não é vídeo curto. É informação que vai mais fundo. Eles também assistem a mais TV do que o brasileiro em geral. Sim, estão ligados nas redes, no Zap, mas são muito mais expostos a jornalistas e gente conversando sobre política do que o sujeito típico por aí.

Na cabeça de muitos progressistas, quem votou em Bolsonaro em 2018, votou depois em 2022, radical é. Machista é. Quer golpe. Não é o que estes sujeitos são. Eles são outra coisa, são de direita. Não são de esquerda. São conservadores. Vai ter gente olhando e dizendo “pobre de direita”. E eles ouvem. Sentem o desprezo de quem diz “você não tem a sofisticação necessária para entender que eu sei melhor o que é bom para você”. E, enquanto isso, eles olham pro cenário nacional e dizem: quero um presidente conservador, alguém que não vai virar tudo pelo ar.

Aliás, digo mais: 45% deles dizem que querem um político experiente. Todos querem um moderado, metade quer esse moderado experiente. Esta não é uma eleição de antipolítica. Esta não é uma eleição que o modelo Jair-Eduardo Bolsonaro-Paulo Figueiredo se criam, não.

Mas então por que Flávio está tão lá em cima? Pelo seguinte. Vamos dar uns passos atrás. Lembra que o total de pessoas que rejeitam a polarização representava 36% do total? Pois é. Então. Digamos que a gente chegue lá no primeiro domingo de outubro, urna na frente. E é isso aí. Lula em primeiro, Flávio em segundo. Nesse cenário, qualquer outro já perdeu, mesmo que contrariados, como vota esse pessoal. Bem, eles são de direita. Aqueles 36% se quebram em três. 5 não vota em nenhum, 8% vota em Lula, e 23% vão de Flávio. Hoje, está assim.

Alguns de vocês dirão, bolsonaristas enrustidos, tudo fascista. Só que não é o que eles são. O que eles são é brasileiros de direita em busca duma saída e não encontrando.

E as mulheres? Como elas entram nessa história. A gente fez uma pesquisa na primeira semana de maio, aí saiu o áudio dele pedindo dinheiro para o Vorcaro. No primeiro turno, naquela pesquisa, Flávio pontuava 36% das intenções de voto. Fizemos uma segunda pesquisa três semanas depois. Caiu para 31,5%. Agora, um mês e meio após o áudio, nova pesquisa. Está com 32%. Na margem de erro, mesma coisa. Aí vocês dirão, é isso, é o Vorcaro. Não. Não só. De novo, é preciso mergulhar por dentro dos números para entender o que aconteceu.

Porque, veja, após o Brasil descobrir que a família Bolsonaro ganhou dezenas de milhões de reais no escândalo do Banco Master, Flávio perdeu votos tanto entre homens quanto em mulheres. Mas sabe o que aconteceu na pesquisa nova, de um mês e meio depois? Flávio conseguiu todos aqueles votos de homens de volta. Ué. E como é que ele manteve a queda?

As mulheres. Após o vídeo denúncia de Michelle Bolsonaro, Flávio perdeu ainda mais votos entre mulheres. Se você compara os números de abril e início de maio com os de hoje, quase que a totalidade de votos que Flávio perdeu foi entre as mulheres.

O estrago foi muito grande.

O que fica daqui? Duas lições pra todos nós. Esta não é uma eleição antipolítica, o número de eleitores querendo uma direita radical está encolhendo. E tem as mulheres conservadoras. O PL ainda não entendeu o tamanho do strike que Michelle deu.

Mais uma: Paulo Figueiredo pode ser a Carla Zambelli deste ano.

Encontrou algum problema no site? Entre em contato.