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Flávio não tem voz

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Sexta-feira à noite, Flávio Bolsonaro ligou a câmera do celular e gravou um desabafo. O pai dele, disse, “foi enterrado vivo”. A decisão que acabava de sair do Supremo era “ilegal, desproporcional, covarde e cruel”. Segura essa imagem aí: um homem sozinho, de noite, gravando vídeo indignado no celular. Saem aqueles filmes bem acabados do início da campanha do filho, entram as lives desajeitadas no estilo do pai. Guarda essa ideia porque ela explica mais da eleição que começa hoje do que todas as convenções que vão se espalhar pelo país até 5 de agosto.

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Oito dias depois daquele vídeo, no sábado que vem, dez da manhã, Mercado Pago Hall, no Pacaembu, em São Paulo, esse mesmo homem sobe num palco diante de sete mil pessoas para ser proclamado candidato do PL à Presidência da República.

Pra entender como essas duas cenas cabem no arco de uma semana, a gente precisa rebobinar.

Dia 11 de julho, sábado, Flávio fez uma live no YouTube pra ler uma carta. “Carta aos Brasileiros”, assinada por Jair Bolsonaro — que cumpre, em prisão domiciliar, os 27 anos a que foi condenado por tentativa de golpe. Na carta, o pai se diz “saudoso do contato com o povo”, pede que os apoiadores deixem “de lado as possíveis diferenças”, apresenta o filho como “a melhor opção” para livrar o Brasil da corrupção, da violência, do empobrecimento. Nada disso é importante, tá? O importante está aqui: Bolsonaro chama Flávio de “porta-voz no qual confio”. Porta-voz. É um documento de unção, na letra de quem ungiu. É o rei que passa o cetro ao filho.

Aquele pedido, o de deixar de lado as diferenças, não era retórica. Todo o Brasil sabe para quem era. Dias antes, Michelle Bolsonaro tinha publicado um vídeo de 27 minutos expondo a guerra dela com os enteados. E domingo agora, enquanto os jornais falavam da carta, ela passou o dia respondendo do jeito dela, nos stories: o prato de comida feito em casa, o cachorro sempre ao lado. E, sem aparecer, ela ia falando. “Isto é amor”, “isto é cuidado”. A boa mulher cristã cuida do marido que sofre. A gramática de quem diz que amar é cuidar, contra a gramática jurídica de uma procuração. A família Bolsonaro está em guerra interna e cada um joga com suas armas.

A carta deu problema, claro. Bolsonaro fazendo política enquanto preso. Dia 13, Alexandre de Moraes proibiu Flávio de visitar o pai por 90 dias. Você sabe por que 90 dias, não sabe? Contados de 13 de julho, atravessam outubro. O candidato não vai ver o pai antes da eleição. Detalhe: Flávio está registrado como integrante da equipe jurídica da defesa. Não importa. Proibido.

Aí, na sexta, dia 17, tudo piorou. Todas as visitas suspensas por 30 dias — ficam só médicos, fisioterapeutas e advogados. Visitas de natureza político-eleitoral, vetadas até o fim das eleições. E manifestos políticos proibidos, “diretamente ou por terceiros”. A justificativa de Moraes: a prisão domiciliar humanitária não pode virar fonte de “odiosos privilégios”. A defesa respondeu com um argumento que, se você parar um segundo, é devastador pra candidatura: Bolsonaro não sabia que a carta seria lida em público. Pausa. Respira. Pensa. O outorgante não sabia o que o porta-voz ia fazer com a procuração.

Sábado agora, dia 18, caiu a última peça. Javier Milei, presidente da Argentina, tinha pedido pra visitar Bolsonaro em Brasília no dia 25 — justamente o dia da convenção. Moraes negou. Milei vem assim mesmo: vai estar no Pacaembu, no palco, levantando o braço do Flávio. O aval que o pai está proibido de dar foi terceirizado a um presidente estrangeiro. É Milei quem dirá: o candidato do nosso movimento, que representa a onda da direita dura nas Américas, é Flávio. Flávio é Milei. Milei é Flávio. Todos sob Trump.

Respira de novo. Mais uma pausa. Convenção no sábado. Está faltando alguém aqui, não é? Falta alguém nessa história. O vice. Ou, mais provavelmente, a vice. A cinco dias da convenção, a chapa não existe. A vice de Flávio precisa ser mulher, pra estancar a rejeição feminina que a guerra com a Michelle escancarou. Precisa agradar o PP — o que depende de Ciro Nogueira fazer as pazes com Flávio depois do caso Banco Master. Precisa servir de moeda pro Republicanos, partido de Tarcísio, que cobra palanque nos estados. E precisa, ainda, do aval do pai. Que está proibido de dar aval. Cada critério da escolha pertence a alguém que não é o candidato. Em 2022, nessa mesma altura do calendário, Jair Bolsonaro já tinha Braga Netto anunciado, palanques encaminhados, três partidos fechados na aliança.

Você já entendeu o que essa semana revelou, não é mesmo? A candidatura que o PL proclama sábado é uma candidatura por procuração. O outorgante está mudo, por ordem judicial. A procuração — a carta — não pode ser renovada, nem por terceiros. O aval veio de fora, e de passagem. É o presidente da Argentina. E a única linha que um candidato deveria assinar sozinho, o nome do próprio vice, está em branco. A eleição de 2026 começou hoje, com o fim da Copa, início das convenções. E o favorito da oposição chega nela sem conseguir ser capaz de dizer uma coisa um bocado simples: quando ele fala, quem de fato está falando?

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Pois é, e a gente falando de partidos que não conseguem dizer quem são. No nosso streaming tem um filme que vai na raiz disso. É um episódio do Ponto de Partida, a série, sobre os partidos políticos brasileiros. De onde vieram, por que funcionam assim. Só que, no fundo, ele é sobre nós. Sobre o que é ser brasileiro — e como a gente foi perdendo essa noção de vista. O que faz de nós um povo só. Por que perdemos a capacidade de nos enxergarmos como um povo só, divididos por raiva, ressentimento, incapacidade de aceitarmos diferenças? Por que nossos partidos perderam por completo o sentido do que são?

Na quarta-feira, às 19h, a gente vai abrir esse filme no YouTube. Estreia aberta, de graça. Ele fica no ar até a noite de domingo. Depois volta pro streaming — onde tem muito mais do que ajuda a entender o Brasil, o processo eleitoral que começa agora, o que está em jogo em outubro. Esse filme é uma pequena amostra do que existe por lá. Para vocês entenderem o tipo de material que oferecemos para ajudar a entender a política brasileira. Assina o Meio Premium.

Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

Deixa eu fazer uma distinção, porque a essa altura você já ouviu as duas frases prontas. A do Flávio: o pai foi “enterrado vivo”, é censura, é perseguição. E a do outro campo: “odiosos privilégios”, golpista tem mais é que ficar calado. As duas têm o mesmo defeito. Cada uma enxerga só metade do que aconteceu.

Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos por tentar um golpe de Estado. Está cumprindo pena — abrandada, domiciliar, humanitária, por causa da saúde. Jair é um homem muito frágil. E condenado cumprindo pena não faz campanha eleitoral. Preso comum não grava recado de campanha. Aí você me diz: mas a decisão de sexta proibiu terceiros de divulgar manifesto. Isso não é censurar quem não foi condenado? Não é. Vamos lá. Se o preso não pode fazer campanha, mas o filho pode ler as cartas dele em live, a pena vira letra morta — qualquer político preso do país teria direito a um alto-falante do lado de fora. A cláusula dos terceiros simplesmente faz a regra valer. Ou a pena vale, ou não vale.

Agora, vem cá: Flávio pode falar. Pode dizer o que quiser, defender o que quiser, prometer o que quiser — desde que seja dele. Ele é o candidato. Não é? O que o Supremo proibiu não foi a voz do candidato. Foi o candidato ser alto-falante. E o desespero da campanha diante disso conta a verdade toda: tirando o repasse, o que sobra?

Agora, se você acha que isso é um absurdo inédito, uma invenção do Moraes contra a direita — deixa eu te lembrar de uma coisa. 2018. Lula preso em Curitiba, querendo dar entrevista em plena campanha. Quem correu ao Supremo pra impedir, e conseguiu? O partido Novo. O mesmo partido do Zema. Na época, a esquerda gritou censura e a direita explicou que preso não faz campanha. Hoje, os papeis inverteram, e o princípio ficou parado no mesmo lugar, olhando pros dois. Se o seu argumento só funciona quando atinge o seu lado, ele nunca foi um princípio. Era torcida. Eu sei, eu sei. O Flávio está dizendo que Lula podia. Ele só está esquecendo do que de fato aconteceu. Ou, ao menos, está fingindo esquecer.

Agora, vem cá. Vamos olhar o resto do campo. Segunda que vem, dia 27, o Novo proclama Romeu Zema seu candidato, em Brasília. Também sem vice. E o Zema fez uma coisa curiosa: citou Michelle Bolsonaro como possível companheira de chapa. Sabendo — porque todo mundo sabe — que ela não pode. É filiada ao PL, e o PL tem candidato próprio. Ele lançou o nome dela por um dia de manchete, de redes sociais, por pura demagogia. O partido dele vai entregar a escolha do vice à Executiva, oficialmente pra “ganhar tempo”. Tempo pra quê? Pra ver se a candidatura do Flávio desaba com o caso do Banco Master. A vaga de vice do Zema não está vazia só por indecisão. Só por falta de apoios, de alianças. Tudo isso existem, mas há também uma aposta na desgraça do vizinho.

Aí tem o Renan Santos, do Missão, que construiu a candidatura numa frase só: ele é o Milei brasileiro. Pois é. Sábado, o Milei de verdade vai estar no Pacaembu — levantando o braço do outro. Aliás, repara na agenda do argentino: daqui, ele segue pra posse da Keiko Fujimori no Peru, dia 28, e depois pra posse do Espriella na Colômbia, em 7 de agosto. O aval que consagra o candidato brasileiro é uma escala num tour continental. E até a única chapa completa da direita — Caiado com Kassab de vice, convenção no domingo — vai se reunir pra decidir, principalmente, que os diretórios estaduais ficam livres pra apoiar quem quiserem. Inclusive Lula.

A eleição começou, então aperta os cintos. Em outubro você vai escolher um presidente. Em geral, nessas horas, o que esperamos ouvir de um candidato é: o que você vai fazer? Essa semana ensinou que tem uma pergunta anterior. Quem fala através de você? Porta-voz não responde pelo que promete. Responde por quem mandou. Se a candidatura é por procuração, seu voto também vira procuração — você assina embaixo sem saber de quem é a letra.

Lembra da imagem que eu pedi pra vc guardar? A do homem sozinho gravando vídeo no celular, de noite. Até 5 de agosto, cada partido vai subir num palco pra se apresentar a você, a mim, a todos nós. Brasileiros. O critério pra assistir a isso tudo é um só: repara quem anuncia o próprio vice, com nome, lógica e assinatura próprias — e quem sobe no palco segurando a carta de outro. É assim que você separa, nessa eleição que começa agora, quem é candidato de quem é procurador.

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