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A ascensão das potências médias autoritárias

Abdulnasser Alseddik / Anadolu via AFP

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A atual onda mundial de autocratização representa um dos mais sérios desafios à arquitetura global há muito considerada a base da política internacional: a ordem internacional liberal baseada em regras que, desde 1945, ajudou coordenar a cooperação em todas as áreas, desde o comércio até o clima e a segurança.

Nesse contexto, o primeiro-ministro canadense Mark Carney aproveitou seu discurso no Fórum Econômico Mundial de janeiro de 2026, em Davos, na Suíça, para fazer um balanço contundente da situação global e exortar as “potências médias” a assumirem um papel mais ativo. De maneira bastante direta, que ecoou pelo mundo, ele argumentou que “as potências médias devem agir em conjunto, porque, quem não está à mesa, está no cardápio”, e que a cooperação genuína entre Estados de porte intermediário seria um dos poucos caminhos viáveis para sustentar uma ordem mundial mais resiliente e baseada em valores.

Embora esse apelo à ação coletiva seja compreensível, ele se baseia em uma suposição sobre a natureza das potências médias que já não se sustenta. Nos últimos anos, surgiu um novo tipo de potência média autoritária com fundamentos e objetivos muito diferentes, simbolizado pela crescente assertividade na política global de Estados como os Emirados Árabes Unidos (EAU) e, até recentemente, a Venezuela. Em outras palavras, muitas potências médias não podem fazer parte da solução porque são parte do próprio problema que líderes como Carney esperam resolver.

O comportamento desses Estados autoritários de médio porte é motivado por estratégias de sobrevivência do regime. Com base em uma análise aprofundada do comportamento das potências médias autoritárias nos cinco continentes, demonstramos que a combinação distinta de potência de médio porte e governança antidemocrática produz uma forma de comportamento internacional marcada por três características centrais. Primeiro, as potências médias autoritárias combinam rotineiramente hard power e soft power para alcançar seus objetivos.

Em segundo lugar, seu status de potência de médio porte aumenta sua consciência dos riscos de agir sozinhos. As potências médias autoritárias adotam uma lógica semelhante, mantendo-se profundamente engajadas em fóruns regionais e internacionais por meio de uma estratégia de diversificação de riscos, que envolve manter laços com uma ampla gama de parceiros para atenuar ameaças externas e aumentar a durabilidade do regime. Como resultado, as potências médias autoritárias muitas vezes permanecem inseridas em instituições e alianças democráticas, mesmo enquanto atuam por dentro para enfraquecer as salvaguardas democráticas e tornar os fóruns multilaterais mais favoráveis às suas políticas e estratégias. Seu envolvimento com o multilateralismo torna-se, assim, um veículo para a erosão democrática, em vez de uma cooperação democrática.

Essa dinâmica alimenta uma terceira característica fundamental: muitas potências médias autoritárias trabalham ativamente para enfraquecer o comprometimento global com as normas democráticas e os direitos humanos.

Embora não busquem derrubar a ordem internacional liberal de forma direta, ao atuarem seletivamente dentro e contra ela — perturbando seu funcionamento enquanto minam o apelo e a prática da democracia e do internacionalismo liberal —, eles contribuem fortemente para a onda autocrática global.

Países como os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e a Turquia são considerados potências médias porque “não reivindicam o título de grande potência, mas demonstraram ser capazes de exercer um grau de força e influência que não se encontra nas pequenas potências.”

Havia 39 potências médias em 2000 e 44 em 2023. O que mudou de forma muito mais dramática foi a composição política desse grupo. Em 2000, nove potências médias eram governadas por regimes autoritários. Em 2023, esse número havia subido para quinze.

Esses números apontam para uma tendência clara: potências médias não democráticas estão se tornando mais comuns. Os Estados autoritários ou que estão se afastando da política democrática representam agora quase um terço de todas as potências médias, em comparação com cerca de um quarto em 2000.

A política externa é geralmente entendida como um meio pelo qual os Estados buscam influência e segurança além de suas fronteiras. Para as potências médias autoritárias, no entanto, o envolvimento externo é moldado menos por objetivos estratégicos abstratos do que pelo imperativo da sobrevivência do regime. Embora invistam fortemente na diplomacia de prestígio, destinada a posicioná-los como atores de importância internacional — frequentemente descrita como soft power —, as potências médias autoritárias também têm demonstrado disposição para empregar o hard power coercitivo quando isso serve a fins políticos internos.

Nos últimos anos, países como Turquia, Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos têm empregado o hard power de maneiras que se assemelham cada vez mais às estratégias das grandes potências.

O que distingue as potências médias autoritárias não é simplesmente sua disposição para usar a força, mas a ambição e o cálculo por trás disso. Alguns Estados, como o Irã e a Arábia Saudita, buscam objetivos hegemônicos regionais declarados, enquanto outros — incluindo a Turquia e os Emirados Árabes Unidos — procuram exercer influência além de seu peso geográfico e demográfico.

Essas estratégias são também, por natureza, desestabilizadoras. Portanto, as potências médias autoritárias têm procurado compensar a coerção com formas mais brandas de poder, que acarretam menores riscos e custos de reputação. Países como o Catar, a Turquia e a Arábia Saudita posicionaram-se como intermediários indispensáveis em conflitos regionais e globais.

A cooperação para o desenvolvimento também se tornou uma importante ferramenta de influência. Ao contrário dos doadores ocidentais, esses doadores emergentes raramente impõem condições relacionadas à reforma democrática ou aos direitos humanos, o que os torna parceiros atraentes para regimes autocráticos e em processo de autocratização.

O uso combinado do hard power e do soft power destaca a amplitude e flexibilidade da política externa das potências médias autoritárias. Também expõe suas contradições. Estados que se apresentam como mediadores da paz enquanto alimentam conflitos indiretos, ou como doadores generosos enquanto reprimem a dissidência, operam dentro de uma estratégia de ambiguidade deliberada.

As potências médias democráticas há muito são vistas como guardiãs do multilateralismo e do internacionalismo liberal. Contudo, ao contrário do que se costuma supor, suas contrapartes não democráticas não ignoraram nem rejeitaram o multilateralismo. Isso resulta em uma estratégia sofisticada de multilateralismo autoritário — que busca não desmantelar as instituições internacionais, mas torná-las mais seguras para o regime autoritário, reformulando-as a partir de dentro.

Países como Egito, Paquistão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Indonésia têm colaborado repetidamente na Assembleia Geral da ONU e no Conselho de Direitos Humanos da ONU (UNHRC) para bloquear diligências específicas por país, enfraquecer mandatos de investigação e diluir resoluções que abordam a erosão da democracia.

Em toda a América Latina, Sudeste Asiático e Ásia Central, potências médias autoritárias têm promovido o que tem sido denominado “regionalismo autoritário”: a criação e manipulação de organismos regionais para legitimar a autocracia e facilitar a sobrevivência do regime.

No entanto, as potências médias autoritárias raramente abandonam o diálogo com Estados ou instituições democráticas. A maioria adota uma postura de equilíbrio, mantendo relações com ambos os blocos para preservar a autonomia e minimizar os riscos.

A ascensão das potências médias autoritárias representa um profundo desafio para as instituições liberais. Ao instrumentalizar o multilateralismo, esses governos transformam fóruns destinados a defender normas democráticas em instrumentos de legitimação do regime. Ao cooptar instituições, criar órgãos paralelos e formar coalizões ad hoc, as potências médias autoritárias atuam por dentro contra a ordem baseada em regras, remodelando-a de maneiras que restringem o espaço para os valores liberais e a accountability democrática.

As potências médias autoritárias também são hábeis no uso de ideias políticas e ideologias para promover o desempenho de seus regimes, fabricar legitimidade e gerenciar sua reputação global, o que lhes permite moldar a forma como são percebidas tanto no âmbito interno quanto internacional.

As potências médias autoritárias também empregam ideias e ideologias de forma mais direta para contestar as normas democráticas. Duas vertentes têm sido especialmente influentes. A primeira enfatiza a pluralidade civilizacional, contestando as pretensões universais associadas à democracia e aos direitos humanos. A segunda promove valores tradicionais ou conservadores. Juntas, essas narrativas são utilizadas para justificar a repressão e resistir ao escrutínio internacional.

Consequentemente, à medida que circulam as narrativas pró-autoritárias de países como a Turquia e os Emirados Árabes Unidos, elas enfraquecem o apelo das normas democráticas e ajudam a reformular o autoritarismo como uma alternativa legítima — às vezes até atraente.

À medida que a ordem internacional liberal baseada em regras entra em um período de profunda crise, não se pode presumir que as potências médias agirão coletivamente para defendê-la. Pelo contrário, os países autoritários de médio porte têm sido fundamentais para a erosão da ordem liberal baseada em regras, ultrapassando limites internacionais, facilitando a repressão transfronteiriça, enfraquecendo os compromissos multilaterais com os direitos humanos e normalizando a governança autoritária. Em conjunto, essas práticas esvaziaram gradualmente as normas e os compromissos institucionais que sustentaram o multilateralismo pró-democracia baseado em regras.

Isso, por sua vez, tornará cada vez mais difícil para os governos das potências médias democráticas, como o Canadá e seus aliados com ideais semelhantes, encontrar um terreno comum com seus homólogos não democráticos para impedir o colapso da ordem baseada em regras.

No entanto, embora frequentemente se alinhem com grandes potências autoritárias, especialmente em fóruns como a Assembleia Geral da ONU e o Conselho de Direitos Humanos da ONU, seria um erro considerar as potências médias autoritárias simplesmente como extensões da China e da Rússia. Na realidade, esses países de médio porte mantêm considerável autonomia e adotam estratégias que, por vezes, divergem das preferências de Pequim ou Moscou.

O futuro pode muito bem ser mais autoritário, mas é improvável que o desafio representado pelas potências médias autoritárias assuma a forma de um ataque coerente ou coordenado à ordem internacional liberal. Em vez disso, será desigual, imprevisível e profundamente moldado pelos incentivos da política das potências médias — tornando-o mais difícil de antecipar e mais difícil para as democracias combaterem.

***

O artigo completo será publicado na edição de outubro do Journal of Democracy em Português, da Plataforma Democrática (Fundação FHC e Centro Edelstein de Pesquisas Sociais). As demais edições estão disponíveis gratuitamente para download.

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